Return of The Obra Dinn e a estética low-tech | Sem Tilt

Return of The Obra Dinn e a estética low-tech


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Return of the Obra Dinn é o novo projeto de Lucas Pope, criador do fantástico Papers, Please. Anunciado em 2014, o jogo recebeu uma demo mais completa recentemente na Game Developers Conference deste ano, e que foi disponibilizado para o público após o evento.

O jogo gira em torno do Obra Dinn, um navio mercante da Companhia das Índias Ocidentais (espero que ninguém tenha cabulado aulas de história e saibam do que estou falando) que, após ter desaparecido em 1802, ressurgiu próximo ao porto de Falmouth, Inglaterra, sem ninguém à bordo. Você controla um inspetor de seguros contratado pela Companhia para investigar o que aconteceu com o navio e sua tripulação. Para isso, você conta com o Memento Mortem, do latim, “lembrar a morte”, um relógio de bolso mágico que possui o poder de te transportar ao exato momento da morte de uma pessoa ao entrar em contato com o cadáver.

Investigação forense sobrenatural

A demo consiste apenas no convés principal e naquele que acredito ser o aposento do capitão, mas dá pra se ter uma idéia de como a história do jogo vai progredir, pois só com os poucos corpos que encontramos dá pra ver que houve algum conflito entre os tripulantes e que o navio chegou a ser atacado por forças sobrenaturais. Return of the Obra Dinn tem muito potencial como um jogo de aventura e mistério, sem contar a proeza de transformar o trabalho de um inspetor de seguros em algo minimamente intrigante, mais ou menos que nem Phoenix Wright fez com o de um advogado.

Todavia, o mais interessante do jogo, para mim, não é a sua história, mas sua estética visual.

Inspirado nos gráficos 1-bit (sim, UM bit) dos primeiros computadores Macintosh da década de 1980 que teve durante sua infância, Pope decidiu recriar o estilo visual dos jogos da época, com uma paleta preta e branca, mas usando as ferramentas modernas de desenvolvimento de games, como Maya e Unity.

Usando estratégias desenvolvidas para driblar as limitações tecnológicas da época, como criar diferentes tons de cinza (pelo menos cinqüenta) usando apenas o espaçamento entre os pixels pretos e a inversão da cor de contorno dos objetos de acordo com a iluminação da cena, o resultado final alcançado em Return of the Obra Dinn é fascinante. Outro jogo que busca o mesmo estilo visual e também impressiona é Rogue Invader, da Squishy Games, atualmente no Steam Greenlight.

Percebam como nas áreas mais iluminadas, como as pilastras, o contorno é preto, e nas áreas mais escuras, como os barris, o contorno é branco.

Ao contemplar o visual destes jogos, fui atrás das referências que Pope citou como inspiração e encontrei uma série de games antigos que possuíam uma beleza peculiar, uma pixel art que trabalhava de maneira muito inteligente as suas duas cores para criar imagens extraordinárias. Jogos como Uninvited, Shadowgate e Dark Castle.

Conhecer mais sobre esses jogos me fez lembrar de quando aprendi a apreciar pixel art em games. Quando era mais jovem, acreditava que quanto mais novo e mais tecnológico, melhor era o gráfico do jogo. Quem é velho que nem eu e viveu a transição dos sprites 2D para os polígonos 3D na época do primeiro Playstation e do Nintendo 64 deve se lembrar do choque que foi ver mundos mais realistas (para a época) e vastos, com personagens que podiam se mover em muito mais direções, uma evolução drástica em relação aos “desenhinhos” do Super NES e do Mega Drive. Houve uma época em que gráficos 2D eram sinônimo de gráficos ruins. Pensando agora, em retrospecto, é bem capaz dessa idéia ter sido forçada pelo marketing de então, com a indústria de games querendo aumentar as vendas das máquinas e dos jogos mais novos.

Uninvited, lançado em 1986 para computadores Macintosh

Só que com o passar do tempo muitos jogadores e desenvolvedores começaram a revisitar e analisar os gráficos limitados dos primórdios dos games, e assim redescobrir a beleza deles. Percebemos que esses gráficos 2D tinham uma estilização e uma linguagem própria que permanece atemporal, independente da busca por realismo que existe em muitos jogos. Eu, pessoalmente, fui aprender isso com o meu Game Boy Advance e jogos como Fire Emblem, Advance Wars e Pokémon, que tinham sprites muito legais e que mesmo hoje em dia eu os vejo e acho bonitos.

Essa redescoberta levou levou à uma ressurgência da pixel art em diversos games nos últimos anos, principalmente em jogos indie, como Fez, Shovel Knight, Hyper Light Drifter e o próprio Papers, Please. O melhor é que agora é possível trabalhar a pixel art como estética visual sem ter que lidar com as limitações tecnológicas de antigamente. É possível criar jogos no estilo gráfico do NES sem ficar limitado às 56 cores que o console conseguia exibir, por exemplo.

E agora, com Return of the Obra Dinn, temos mais um jogo que uniu a estética low-tech com a tecnologia moderna, resultando em um jogo visualmente impressionante. Ele conseguiu transportar o visual preto e branco dos jogos 1-bit dos antigos Macs para as três dimensões, resultando em um mundo sombrio, intrigante e belo, o que ajuda muito a ambientar sua história. Por enquanto só podemos jogar uma demo, mas o potencial que este jogo mostra me deixa ansioso para revisitar este navio.

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Vitor Takayanagi

O melhor meio de conhecer uma pessoa é pelos Pokémons que ela escolheu. Os meus foram: Squirtle, Cyndaquil, Torchic, Turtwig, Snivy e Froakie. Muito prazer. Caso interessar, visitem meu blog (só clicar no botãozinho aí no canto superior direito).