Reinventando a Paciência | Sem Tilt

Reinventando a Paciência


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Uma piada que eu costumava fazer quando via discussões sobre qual jogo era o mais popular ou o que mais vendeu era afirmar que a resposta era óbvia, o Paciência do Windows. Windows é o sistema operacional mais comum para PCs, e todos eles vinham, na época, com o Paciência. Também vinham com o Campo Minado, mas o Paciência é um pouco mais antigo, sendo parte do Windows desde o 3.0, enquanto que o Campo Minado é desde o 3.1, então Paciência ganha. Hoje em dia essa piada não funciona mais, pois a Microsoft não o incluiu no Windows 8 e adicionou propagandas nele no Windows 10, tornando-o insuportável.

Mesmo assim, por muito tempo o Paciência do Windows foi ubíquo, pois todo mundo com acesso a um PC conhecia o jogo e sabia como jogá-lo. Sua jogabilidade era simples e rápida para aprender, bastando saber a ordem das cartas do baralho e conseguir usar o mouse. Sem contar que era o jogo perfeito para enrolar no trabalho, já que dá pra pausá-lo a qualquer momento, como quando o chefe entra na sala, e ele provavelmente está instalado no computador da empresa.

Todavia, um fato pouco conhecido é que o Paciência do Windows, na verdade, não é exatamente o jogo de cartas de paciência. Ele é apenas um dos vários jogos de paciência que existem; o Klondike, para ser mais exato. É como se alguém chamasse o basquete de “o esporte com bola”. Ele é um esporte e ele tem uma bola, mas existem diversos outros esportes com bola.

Jogos do tipo paciência são todos e quaisquer jogos de baralho que envolvem um jogador tentando arrumar as cartas dispostas sobre uma mesa em uma ordem lógica e seguindo certas regras. Tipicamente são jogos solitários (daí o nome norte-americano dele, Solitaire), com apenas um jogador e o baralho, mas eles podem ser jogados competitivamente, em que dois ou mais jogadores tentam terminar sua partida o mais rápido possível, mas um não influencia o jogo do outro.

Com essa definição em mente, dá pra entender melhor aqueles games que são compilações com mais de cem tipos de paciência, ou mesmo a entrada na Wikipedia da lista de jogos de paciência. Imagina, não parece difícil sentar e inventar um tipo novo de paciência agora.

Passo 1: Monte um castelo de cartas. Passo 2: Derrube-o. Passo 3: Coloque as cartas em ordem. Pronto! Vou chamar isso de paciência castelar.

O desafio é conseguir criar uma variação interessante de paciência, e dois games que joguei recentemente conseguiram fazer justamente isso, e seguindo um princípio parecido, que foi misturar a jogabilidade do paciência com algum outro esporte não relacionado à cartas.

O primeiro é o Fairway Solitaire (Big Fish Games, 2007), para iOS, Android e PC, que misturou paciência com golfe. Não, não é para você ficar jogando cartas numa bolinha até ela entrar num buraco. Algumas cartas são dispostas na mesa com a face para baixo, com outras no topo delas com a face para cima, e o resto fica no bolo. Você expõe a primeira carta do bolo e tenta continuar a seqüência numérica, independente do naipe, com as cartas visíveis na mesa, revelando as cartas de baixo de acordo com as cartas que forem sendo usadas na seqüência. Quando não der mais para continuar a seqüência, pega-se a próxima carta do bolo para iniciar-se uma nova. O objetivo é limpar a mesa antes das cartas do bolo acabarem. Até aqui, parece um jogo normal de paciência.

O golfe aparece na pontuação do jogo. Para quem não conhece, a pontuação do golfe conta quantas tacadas o jogador leva para conseguir pôr a bola no buraco em relação ao par, que é o ideal de tacadas para cada buraco. Por exemplo, se estou em um buraco de par 3 e levo 4 tacadas para terminá-lo, fiz 1 ponto. Se tivesse levado 2, teria feito -1 ponto, é daí que saem os placares com valores negativos. Como deve ter dado para perceber, quanto menor for a sua pontuação, melhor você foi no jogo.

Fairway Solitaire une a pontuação do golfe com a jogabilidade da paciência ao contar quantas cartas sobraram na mesa ao término do bolo como se fossem as suas tacadas, e cada layout das cartas é como se fosse um buraco, cada um com um par pré-definido. Ou seja, se ao terminar o meu bolo eu deixei 5 cartas na mesa e o par desta partida é 3, fiz 2 pontos. Se tivesse limpado a mesa, teria feito -3, e por aí vai.

Além disso, o jogo agrupa três ou mais buracos em um percurso só, acumulando a sua pontuação. Isso ajuda a criar uma sensação de continuidade, pois se fizer uma partida ruim, tudo bem, talvez você consiga compensar no próximo buraco. Esse sistema de pontuação também abranda um pouco a sensação de derrota, pois não mais o jogo de paciência virou uma questão de ter terminado todas as cartas da mesa ou não, está tudo bem deixar sobrar algumas.

Exemplo de pontuação de um percurso em Fairway Solitaire, notem como fui mal nos buracos 1 e 5, mas os resultados dos demais garantiu minha pontuação final.

Essa maneira que o jogo encontrou para me manter num estado de “está dando errado, mas pode dar certo” me viciou muito. Em muitos jogos de paciência, se sinto que está dando tudo errado, eu reinicio. Quem vai ficar sabendo, não é mesmo? Já em Fairway Solitaire, eu acabo insistindo num jogo ruim por acreditar que posso consertar depois, que ainda dá pra salvar minha pontuação e fechar o percurso abaixo do par e habilitar o próximo, reiniciando o ciclo.

O jogo ainda mistura outros elementos de golfe, como cartas especiais relacionadas aos diversos obstáculos de um campo de golfe, como a “carta na grama alta” e a “carta do banco de areia”, e um sistema de curingas ligado às diferentes numerações dos tacos de golfe, mas o ponto central é mesmo o sistema de pontuação. É um game bem viciante e foi uma maneira muito divertida de repensar a paciência.

O outro jogo que também soube incorporar elementos de outro esporte na paciência foi Pocket Card Jockey (Game Freak, 2016), para o 3DS, que misturou corridas de jockey com o jogo de baralho. Não, você não fica batendo num cavalo com cartas até ele ganhar uma corrida. O que acontece nele é que durante uma corrida você alterna partidas curtas de paciência, em que o seu desempenho dita o desempenho do cavalo, com partes de posicionamento estratégico do seu jockey na pista, desviando dos demais corredores ao mesmo tempo que administra sua energia (stamina), até chegar na reta final, quando você tenta ajudar o seu cavalo reposicionando ele e gastando os boosts que ganhou durante a corrida.

O funcionamento da parte paciência do Pocket Card Jockey é similar ao de Fairway Solitaire, em que você revela uma carta do bolo e segue a seqüência com as cartas da mesa, mas neste caso todas as cartas na mesa estão com a face virada para cima. Mas há uma diferença importante, um limite de tempo para resolver as partidas de paciência, e o tempo que você demora para resolvê-las afeta o seu cavalo durante a corrida. Além disso, se você não conseguir limpar a mesa, sua montaria pode ficar mal-humorada e não querer te obedecer durante as fases de posicionamento.

A fase de posicionamento

Novamente, há aqui essa sensação de continuidade e de “deu errado mas pode dar certo”, pois se você for mal durante a paciência, é possível possível posicionar o jockey de maneira mais arriscada para compensar, por exemplo tentando fazer uma curva mais fechada, que é onde estão a maior parte dos cavalos, aumentando a chance de você trombar em outro competidor e perder velocidade. Ou se você tiver ido bem com as cartas, vale mais a pena administrar o ritmo do seu cavalo, economizando energia para a reta final, ficando nas áreas menos cheias da pista. Só que a grande diferença é mesmo o fator tempo, que cria toda uma nova dinâmica, que deixa o jogo mais empolgante e, ao mesmo tempo, mais estressante. Por exemplo, se o tempo da partida estiver terminando e você se afobar, aumenta a chance de você deixar passar uma carta que poderia ter entrado na seqüência, ou mesmo escolher uma carta errada, tipo clicar num 4 quando era para ter clicado num 3, e erros deixam o seu cavalo bravo, o que piora seu desempenho no próximo reposicionamento. Eu nunca apostei em uma corrida de jockey de verdade, mas acho que não ficaria tão desesperado quanto eu fico com o meu cavalo virtual neste jogo quando está acabando o limite de tempo.

Além disso, você cria e cuida dos seus cavalos, que ganham experiência em cada corrida e sobem de nível, aprendendo habilidades que afetam tanto a parte do posicionamento quanto a parte paciência do jogo. Ao lembrarmos que a desenvolvedora é a Game Freak, a mesma de Pokémon, não é surpreendente que ela conseguiu criar um jogo com elementos de criação de bichos virtuais em algo viciante. E muito divertido também.

Jogos de paciência, ao olharmos superficialmente, parecem algo simples, sem muito conteúdo ou novidade, que são sempre do mesmo jeito. É a impressão que o Paciência do Windows deixou em muita gente, inclusive em mim. Tanto que, assim como muita gente, só jogava-o quando estava entediado no trabalho.

Mas alguns desenvolvedores souberam olhar a jogabilidade deles e misturar com outros jogos, criando experiências novas que não apenas entretêm como também dão uma vida nova para essa modalidade de jogo de baralho. Experiências como administrar a sua pontuação em relação ao par de uma partida em Fairway Solitaire ou lidar com o humor do seu cavalo por causa de uma carta mal jogada em Pocket Card Jockey. Elas podem soar estranhas e absurdas, mas acreditem quando digo que elas são divertidas e viciantes.

Acho que esse é o maior elogio que posso fazer para esses dois jogos: eles fizeram com que eu quisesse ativamente jogar paciência, ao invés de só jogar por tédio e falta de alternativa.

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Vitor Takayanagi

O melhor meio de conhecer uma pessoa é pelos Pokémons que ela escolheu. Os meus foram: Squirtle, Cyndaquil, Torchic, Turtwig, Snivy e Froakie. Muito prazer. Caso interessar, visitem meu blog (só clicar no botãozinho aí no canto superior direito).