A rage como reflexo da eterna busca social pelo sucesso | Sem Tilt

A rage como reflexo da eterna busca social pelo sucesso


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Ter acessos de raiva durante jogos online já se tornou rotina para muitas pessoas. O rage, que é esse ataque de fúria, é uma palavra que a maioria dos jogadores já ouviu falar ao menos uma vez, e se você joga algum jogo competitivo online com certeza já conheceu diversos ragers que ficam ofendendo sua equipe, seus adversários e, literalmente, até suas mães.

Essa atitude é extremamente comum em qualquer jogo que envolva competição, desde Super Smash Bros. a Counter Strike, League of Legends e outros jogos do mesmo gênero desses. Se o jogo tem alguma comunicação, como um chat em texto ou voz, o problema acontece ainda mais. Os ragers se tornam tóxicos ao ambiente do jogo e à comunidade, e sua interação se torna indesejada e apenas espalha o pensamento negativo para outros jogadores.

Uma pessoa assistindo um jogador tendo uma rage consegue ver claramente o motivo dela: a frustração. O jogador comete erros, seu time também comete erros, ou às vezes o time inimigo simplesmente é muito superior ao dele e começa a atropelar e ganhar tudo até o final do jogo, sem deixar espaço para que ele jogue como queria. Finalmente chega o ponto em que a derrota é só questão de tempo, e então começa a chuva de falas para tentar tirar a culpa de seus ombros por tudo que está acontecendo, que vão desde culpar e ofender os aliados pela derrota, falar que um campeão ou uma arma é “roubada” por ser forte demais até quebrar o teclado ou o mouse por eles terem falhado em um momento crucial da disputa. O rager fica nervoso, seus aliados ficam nervosos, tristes ou desmotivados, e seus inimigos se aproveitam da situação para provocam todos eles e finalizar o jogo com ainda mais facilidade.

Mas a frustração, o gatilho de toda essa ação, é só consequência de não conseguir alcançar um objetivo maior, a vitória. Ela nada mais é, neste caso, que o domínio sobre o adversário e a demonstração prática de superioridade sobre ele. Ganhar é se elevar. Ganhar uma partida de League of Legends é ter sido superior no uso das habilidades, dos feitiços de invocador, das rotações, posicionamentos, lutas em equipe e tomada de objetivos, como destruição de torres e inibidores. Você é melhor do que todos eles. Da mesma forma, o time que perde é imediatamente taxado como inferior, e ninguém fica feliz em se sentir inferior.

A busca por essa superioridade é incentivada nos jogos através de rankings e classificações. Quanto mais partidas você ganhar, mais pontos terá (o famoso MMR) e melhor será o seu rótulo. A habilidade de um jogador bronze, um tipo de ranking usado em diversos jogos competitivos online para nomear jogadores iniciantes, está a anos-luz de distância da habilidade de um jogador diamante, platina ou campeão. Portanto, há uma classificação de jogadores e há um topo, o que resulta em uma corrida pelo topo e pela primeira colocação nos rankins gerais, a corrida para ser imortalizado e respeitado com o melhor jogador. Sendo assim, o próprio sistema desses jogos incentiva a competitividade entre os jogadores.

No entanto, me parece errado dizer que as empresas que fizeram os jogos que citei no início do texto, por consequência, incentivam o rage. Elas na verdade acharam sua fonte de lucro e de fidelidade através da simulação do que vivemos durante toda a nossa vida. E é aqui que o texto entre em uma discussão social e política, então não diga que não avisei.

A competitividade é muito presente na sociedade ocidental de classe média – e na oriental, mas não entrarei em detalhes nela porque não entendo o suficiente. Desde o colégio este grupo é incentivado a tirar notas altas, a estudar para ser um dos 60 melhores no vestibular e ter uma vaga na universidade e a trabalhar cada vez mais para conseguir uma promoção na empresa. Esses três exemplos têm suas recompensas se conseguirmos alcançar o objetivo – passar de ano e ganhar prêmios, entrar em uma faculdade, ou ganhar mais dinheiro e autoridade na empresa – e suas punições no caso contrário – repetir de ano e ser taxado de burro ou ficar de castigo quando se é pequeno, ter que “gastar” mais um ano da vida, e às vezes dinheiro, estudando pro vestibular, ou ser rebaixado na empresa. Novamente, vencer estes objetivos te torna superior a outras pessoas perante os olhos da sociedade.

Não irei falar se isso é bom ou ruim, mas o resultado disso é incontestável. Se conseguimos alcançar os objetivos, há novos objetivos ainda mais distantes para serem alcançados, e se não conseguimos acabamos sendo mal vistos por família, amigos e colegas de trabalho.

É uma busca eterna pelo topo, e assim como nos jogos online, o topo só é alcançado por uma pessoa, o que significa que milhões de outras ficarão para trás e serão taxadas de inferiores. Mas mesmo quando isso acontece somos ensinados a nunca desistir, a ter persistência e a ver vídeos e palestras motivacionais para entender o quanto podemos lutar contra as adversidades e ascender. É uma luta sem fim.

Na vida real, as pessoas que não conseguem alcançar esse objetivo e insistem que devem continuar essa eterna escalada social e econômica também têm como fim a frustração, e elas também ficam nervosas, irritadas, desmotivadas e dão rages. Algumas se culpam, outras culpam o sistema capitalista e um terceiro grupo até culpa as outras pessoas. Independente de estarem certas ou erradas, é o que se repete nos jogos online.

A rage nestes jogos é apenas uma extensão da rage que muitos temos na vida real pelo mesmo motivo, que é insistir em alcançar o topo, falhar e não aceitar que a falha é parte do processo, seja ela por nossa culpa ou não. Ou pior ainda, por não aceitarmos que talvez nós nunca cheguemos neste topo por nossa culpa e que, na realidade, pode não haver nada de mal nisso.

É importante que, por mais que muitos de nós usemos os jogos como um porto seguro onde tudo é diferente e à parte do mundo real, nós tenhamos consciência de que eles são criados dentro de um contexto político e social real. Se ele faz sucesso é porque ele se encaixou perfeitamente neste contexto, como é o caso de League of Legends e Counter Strike. Também é importante entendermos que não existe saída deste modelo de competitividade para jogos nos moldes que existem na nossa sociedade agora, e que talvez nem precise haver uma saída.

O mais importante é ter a consciência de que os jogos podem ser justamente um lugar em que possamos valorizar nossas falhas e aceitá-las ao invés de tentar culpar aliados, o jogo e até objetos por elas. É a chance que temos de poder falar que não somos os melhores em algo e até assumir que somos ruins, e principalmente entender que não há nada de errado nisso, que isso não diz nada sobre você além de que você é ruim em um jogo.

Se for o caso, é preciso aceitar ser um eterno Bronze V no League of Legends e entender o significado disso para que possamos, por extensão do jogo para a vida real, assim como trazemos a frustração da vida real por extensão para o jogo, nos tornar pessoas que aceitem melhor nossas limitações, nossas capacidades e que sejamos capazes de viver uma vida mais saudável em ambientes virtuais e reais.

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Bhernardo Viana

Amante do pão de queijo e do cafézim, começou a brincar no meio dos indies e não parou mais. Um grande fã de puzzles e de jogos alternativos, experimentais e malucos. É o Editor-Chefe do Sem Tilt e ex-redator no site e na revista da Indie Game Magazine.