Por que Mushroom 11 é um marco dos jogos de Puzzle | Sem Tilt

Por que Mushroom 11 é um marco dos jogos de Puzzle


Mushroom 11 poderia ser mais um puzzle em plataformas comum. Você controla um ser amorfo grande – que chamarei de ameba a partir de agora – em um mundo aparentemente devastado por algum acidente terrível. Apenas algumas formas de vida mutante sobreviveram, incluindo esse estranho ser verde que é sua responsabilidade a partir de agora. Ele é controlado apenas com os dois botões comuns do mouse, que atuam como uma borracha que apaga parte da ameba e faz com que essa parte se refaça na direção em que foi apagada. O botão esquerdo apaga em maior quantidade, enquanto o direito é menor e mais útil para cortes e divisões da ameba.

Não há níveis de personagem, power-ups, itens ou acesso a qualquer melhoria. Os puzzles aparecem como obstáculos que dificultam o seu avanço na fase, e a dificuldade deles não depende níveis e árvores de habilidades, mas sim de movimentação, domínio do controle da ameba e criatividade. Apesar de amorfa, a ameba pode ser modelada, e a sua habilidade em controlar isso irá definir se você vai passar ou vai ficar preso na fase, mesmo que a solução não envolva tomar uma forma definida para vencer. Não há limites para a movimentação. A restrição é tudo que a ameba consegue tocar sem ser queimada, eletrocutada ou infectada por inteiro. Como o jogo tem forte influência da física, algumas áreas podem não ser alcançáveis por ação da gravidade.

Os puzzles de Mushroom 11 são extremamente difíceis. Cada fase do jogo é um capítulo, totalizando sete. Cada capítulo é contínuo e tem por volta de 10 diferentes puzzles em sua extensão. Espere levar cerca de uma hora para passar de cada capítulo a partir do terceiro. Apesar disso, os puzzles não são frustrantes pois dependem de lógica e raciocínio imediato, e não de reconhecimento de padrões ou habilidades descomunais do jogador. Nenhum dos puzzles será nem um pouco parecido com o outro, mas eles terão dificuldades variadas e sua sorte jamais terá influência nas resoluções. Essa variação, mesmo com a dificuldade geralmente alta, faz com que o jogo não seja enjoativo, mas sim interessante. Até mesmo ficar preso num obstáculo e ver que sua estratégia não está funcionando se torna um momento para refletir rapidamente e se tocar que você deve recomeçar seus planos.

Cada puzzle é único e no máximo vai ter um mecanismo em comum com algum outro puzzle, que será usado de forma diferente. Um exemplo disso é uma engrenagem com quatro buracos nas beiradas, na qual a ameba pode entrar e sair. Em uma fase, os buracos eram usados para a engrenagem ser escalada e permitir alcançar um novo ponto da fase, enquanto em outra ela estava presa a uma parede ao lado de um vapor de lava, e meu objetivo era colocar a ameba dentro dela e deixar um pedaço para fora para servir de alavanca para a engrenagem girar com o vapor subindo e abrir uma porta.

Por ser um jogo interessante, ele te motiva a resolver todos os problemas. Quanto mais eu avançava no jogo, mais eu me surpreendia com um novo obstáculo em que minha criatividade teria que ser usada de maneira completamente diferente do anterior e do que ainda viria. Fazer florescer a criatividade a cada novo obstáculo dentro de um jogo que envolve raciocínio lógico é algo raro e que Mushroom 11 faz com uma beleza incrível, por ser igualmente criativo ao que instiga.

O jogo também permite pensar por si mesmo como resolver cada puzzle. Não há pistas, textos ou dicas de como eles devem ser resolvidos, nem mesmo uma dica sutil; e algumas vezes existe mais de uma solução é possível. É preciso reconhecer o espaço físico do puzzle, o obstáculo, o objetivo a ser alcançado e traçar um plano para chegar no objetivo. É literalmente a lógica de resolução de problemas aplicada a um jogo de forma incrível, pois apesar de não haver vidas e a única punição por morrer no meio da fase ser voltar para o checkpoint mais recente – e eles existem a rodo -, a própria natureza do jogo cria uma atmosfera que te cativa a planejar mais os movimentos do que arriscar na tentativa e erro. Você quer passar por aquilo e quer fazer do jeito certo pois é sua única opção. Você vai falhar se não pensar. É preciso analisar quando você vai cortar a ameba em três, duas, alongá-la para cima, para os lados, fazer um gancho, um braço, uma alavanca, uma ponte ou até mesmo calcular rapidamente onde deverá ser feito um corte para que a massa da ameba arremessada por um carrinho de carvão em movimento seja suficiente para que ela alcance outra plataforma. O planejamento desses movimentos é essencial, pois qualquer célula da ameba que passe do obstáculo pode ser o núcleo para que o resto dela se forme novamente no lugar certo e você siga em frente.

A sensação de ansiedade ao ver um novo obstáculo e saber que virão mais longos minutos para pensar na solução, quando misturada com a sensação de ver que a sua estratégia, feita unicamente por você sem ajuda de algo ou alguém, foi a solução perfeita, é elevadora e te faz se sentir o mestre do puzzle-fu, a arte milenar de aniquilação de puzzles. Essa sensação de realizar uma façanha também é o que separa Mushroom 11 dos outros puzzles difíceis e frustrantes. Ao invés de cada fase difícil se tornar um peso morto que eu queria tirar das minhas costas o mais rápido possível, elas eram uma caixa de presentes lotada de novidades e coisas para conhecer e me divertir.

Ponho Mushroom 11 no mesmo pedestal da série Portal, como um dos melhores puzzles que já joguei até hoje e sem dúvidas o melhor do ano até o momento – se houver algum melhor do que ele ainda esse ano, com certeza será o melhor da história. Apesar de serem jogos completamente diferentes em diversos aspectos, ambos são puzzles que foram além do convencional e criaram essa mesma sensação de novidade, realização e criatividade que a massa de puzzles atual, sejam AAA ou indies, esqueceram com o tempo. É só lembrar de febre 2048 e as diversas estratégias padronizadas que todos fazíamos no automático no celular e no computador. Também basta olhar para jogos com livros de resolução e pistas embutidos, como acontece com diversos jogos de aventura point-and-click como Fran Bow Lumino City.

Mushroom 11 te instiga a desligar o automático, aprender a ter um raciocínio calmo, preciso e estimulante. Apesar de outros puzzles também fazerem isso, ele é o único que mostra que é possível aproveitar um jogo criado intencionalmente com um extremo nível de dificuldade sem se frustrar. O que você controla está em constante mudança, e essa mudança, além de ser necessária para superar cada obstáculo, te deixa livre para jogar como você achar melhor. A liberdade do jogador e a criatividade de Mushroom 11 fazem dele um jogo essencial para os amantes de puzzle e algo que poderá ser um exemplo para os jogos que ainda virão.

Você pode comprar Mushroom 11 na Steam por R$27,99. Acesse o site oficial do jogo para vídeos e outras informações.

Este é um artigo de opinião. As ideias aqui expressas são de total autoria de seu autor e não necessariamente expressam as mesmas opiniões do restante da equipe do Sem Tilt.

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Bhernardo Viana

Amante do pão de queijo e do cafézim, começou a brincar no meio dos indies e não parou mais. Um grande fã de puzzles e de jogos alternativos, experimentais e malucos. É o Editor-Chefe do Sem Tilt e ex-redator no site e na revista da Indie Game Magazine.