Pony Island e seus desafios ao clichê | Sem Tilt

Pony Island e seus desafios ao clichê


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Aviso: Este texto contém pequenos spoilers para Pony Island e O Segredo da Cabana

Quantas vezes você se frustrou com um game porque era obrigado a fazer o que a história mandava e não o que você queria fazer? Quando se inicia Pony Island pela primeira vez dá para perceber que há algo de errado no jogo, e não me refiro à atmosfera sinistra que o jogador experimenta como uma alma aprisionada em uma máquina de arcade. O jogo está quebrado mesmo.

O título se trata, a princípio, de um jogo de ação que não poderia ser mais casual. Você joga como um pônei que deve saltitar sobre obstáculos idênticos até chegar ao fim de cada estágio. Ao alcançar a bandeira que marca sua vitória, você é parabenizado com frases de apoio em caps lock “HUGE SUCCESS” piscando na tela e com uma barra de XP que não para de subir e que de fato não significa nada.

Essa é a experiência que o misterioso criador do jogo quer que você tenha: uma eternidade repetindo a mesma ação, sem desafio ou vitórias que signifiquem algo, e é aí que o jogador percebe que pode manipular o funcionamento do jogo. Graças a uma mecânica que permite mudar algumas linhas de código de maneira muito intuitiva, o jogador descobre que pode escapar da jogatina trivial e virar o game contra seu próprio criador.

O fato é que Pony Island não funciona exatamente de maneira adequada. A primeira vez que o jogador modifica o código é para consertar o próprio menu do jogo e sua tela de “loading” que nunca se finaliza. Esses momentos em que o jogo apresenta alguma falha são determinantes para que se possa lutar contra o criador, que insiste que você jogue à maneira dele, e serão a chave para escapar de Pony Island.

Parece complicado mas é muito intuitivo

Acho que deu pra perceber que esse não é um jogo convencional. Não consegui jogar Pony Island sem me lembrar do também nada convencional filme de 2012, O Segredo da Cabana. Dirigido por Drew Goddard, o filme brinca de maneira maestral com os estereótipos de filmes de terror dos anos 90 (aqueles mesmos, cheios jovens inconsequentes e cheios de hormônios).

A obra trata de um grupo de universitários que decide passar um feriado em uma cabana isolada da civilização na floresta . Como seria de se esperar, logo aparecem monstros querendo a cabeça dos jovens. Como não seria de se esperar, contudo, é que ao longo do filme é mostrado que as situações clichê em que os personagens se encontram estão sendo maquinadas por engravatados em uma organização chamada “The Facility”. Portas trancadas sem motivo são acionadas remotamente para colocar a protagonista em perigo; atitudes estúpidas dos membros do grupo são efeitos de hormônios injetados no ar da cabana. A única chance de sobrevivência para eles é usar a própria infraestrutura da  misteriosa organização  para escapar da cabana, do “roteiro” que lhes foi dado, e destruir “The Facility”.

É curioso pensar que as situações improváveis vividas por personagens de outras séries de terror poderiam ser uma criação de uma organização como a de O Segredo da Cabana.

Da mesma maneira que este filme chama atenção para a narrativa de outros e evidencia o ridículo dos clichês de terror, que só poderiam realmente ocorrer se de fato houvesse uma organização maligna no controle dos acontecimentos, Pony Island também o faz para os vídeo games. Essa visão dos protagonistas como hackers de seus próprios mundos joga luz em um terreno tenebroso, o “por trás das cenas” que pré-determina a experiência que as personagens terão e também as que não terão.

Assim como personagens de filmes de terror muitas vezes tomam atitudes que raramente se veriam no mundo real, também é raro em games um protagonista que contemple totalmente as atitudes que o jogador que o controla realmente deseja tomar. The Stanley Parable pode até já ter questionado esse tema por meio de um protagonista que tem a opção de ignorar o narrador de sua própria história e desafiá-lo, mas é inegável que nós, gamers, nos tornamos acostumados a obedecer a alguma autoridade de qualquer jogo que nos diz aonde ir e o que fazer. Afinal, é a única maneira de se alcançar o fim da história na grande maioria dos games, não é verdade? Mesmo quando confrontados com situações em que tomaríamos decisões radicalmente diferentes no mundo real, somos obrigados a fazer o que somos mandados para alcançar aquela doce cutscene final.

Por que não posso poupar a vida de tal inimigo? Por que não posso me abster de um conflito? Por que só posso escolher entre ser um impecável modelo de civilidade ou um completo imoral sem compaixão? Por mais que se tente, não se pode escapar do roteiro que o desenvolvedor criou para o jogo. O recente Undertale (2015) foi um dos primeiros games com grande alcance a também botar estas visões em cheque e ressuscitar, de forma diferente, os questionamentos que Stanley Parable fez em 2011.

Com as falhas de programação que permitem ao jogador hackear e manipular a maneira que jogam, Pony Island questiona a estrutura de poder entre o desenvolvedor do conteúdo e quem desfruta dele. Bioshock já em 2007 havia chamado atenção a essa estrutura em uma das cenas mais marcantes de toda história dos games e Pony Island carrega essa tocha adiante.

Como ocorre em toda mídia em amadurecimento, os jogadores estão cada vez mais críticos e anseiam por experiências fora do padrão. Assim como no cinema, é preciso que nos videogames haja também mais obras que inovem, desafiam os clichês da indústria e, em suma, que melhor representem sua audiência. Pony Island fez um ótimo trabalho em reaquecer essa chama, e sinceramente espero que mais jogos ousem trilhar esse caminho.

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Daniel Baptista

Apenas um rapaz que acha que videogames podem mudar a maneira que alguém vê o mundo. Gosta de jogos questionadores anseia pelo próximo jogo que vai revolucionar o meio. Acredita piamente de que esse jogo será um indie!