Orchids to Dusk e a ruína dos astronautas | Sem Tilt

Orchids to Dusk e a ruína dos astronautas


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Aviso: Orchids to Dusk é um jogo curto e gratuito, disponível no itch.io. Esta análise cobre o jogo de ponta a ponta e contém spoilers sobre os pontos principais dele. É altamente recomendado que você jogue antes de ler.

A explosão do ônibus espacial Challenger em 1986 levou Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos na época, a fazer um discurso lamentando o acidente. A nave explodiu antes de sair da Terra devido a uma falha de vedação em um dos tanques de combustível, e todos os sete tripulantes da missão STS-51-L morreram na hora. Em parte de seu discurso, o presidente disse que “O futuro não pertence aos covardes; ele pertence aos corajosos. A tripulação do Challenger estava nos empurrando para o futuro, e nós continuaremos os seguindo”.

Algum tempo antes, durante a Corrida Espacial entre Estados Unidos e a União Soviética na Guerra Fria, outros acidentes fatais com astronautas, como o incêndio no Apollo 1 em 1967, aconteceram de forma inesperada. Desde então, como ficou claro no discurso de Reagan, os astronautas se tornaram figuras de coragem e pioneirismo, pessoas que dão tudo, inclusive a vida, para “expandir os horizontes do homem”. Astronautas vivos e mortos recebem medalhas e honrarias do presidente e do congresso dos EUA até hoje.

Os Challenger Seven

A política estadunidense de glorificar estes profissionais, que foi provavelmente uma consequência do enaltecimento de seu programa espacial até 1975, foi replicada para os filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço e, vários anos depois, Apollo 13.

Ela também influenciou os jogos digitais que vieram anos depois. Sempre que um astronauta protagonizava um jogo, ele era forte, corajoso ou nunca desistia de seus objetivos e batalhas.

Se o crescimento dos horizontes citado por Reagan não acontecia na vida real, ele teve início nos games em 1983 com jogos como Reach for the Stars, em que o jogador explorava estrelas e seus recursos, exterminava oponentes e expandia seus territórios até onde as telas do computador podiam ver. Bravos astronautas como os de The Dig, jogo de aventura da LucasArts de 1995, buscavam incessantemente formas de voltar para a Terra mesmo depois de se perderem no espaço. Estes títulos e outros que vieram depois, como EVE Online e Elite: Dangerous, concretizaram, juntamente com a política estadunidense, que quem está em uma nave no espaço é um ser elevado em coragem, honra e sobrevivência.

Mas Orchids to Dusk não liga para nada disso. O jogo criado por Pol Clarissou é protagonizado por uma astronauta mulher que faz um pouso forçado em um planeta desconhecido. Tudo que existe por lá são pequenos morros verde-escuros intercalados com um solo verde claro que se assemelha a rios – apesar de ser totalmente sólido. Além disso, também existem pequenas ilhas de vegetação viva e colorida com folhas verdes, amarelas, vermelhas e de outras cores. São pequenos oásis no vazio.

Não há inimigos. Não há missão. Não há como ir embora. A nave foi completamente destruída na aterrissagem. Qualquer tanque de oxigênio que pudesse existir já sumiu, mas ainda há um pouco dele no tanque de sua roupa espacial. O horizonte não mostra nada além de incontáveis colinas. A morte é um medidor de oxigênio chegando ao zero.

Ela é o final único. A astronauta não quer e não pode lutar contra a morte. Você aproveita seus últimos momentos de vida admirando o céu amarelado e as plantas que encontra. Andando com calma, ela pode se sentar em qualquer lugar enquanto o ar acaba lentamente, mas é ela que se senta sozinha. Pare de andar e ela vai começar a admirar o infinito com calma e serenidade.

Após algum tempo sentada, você pode retirar o capacete da tripulante. Ao fazê-lo, ela começa a se inclinar para a frente, com manchas vermelhas saindo de sua cabeça, e seu corpo explode em flores coloridas e árvores como as dos oásis que foram vistos. É aí que cai a ficha de que cada um deles é um memorial a um jogador, um tripulante, que fez a mesma escolha em sua aventura. Como todos jogam no mesmo mundo, cada indivíduo pode dar mais vida a esse planeta ao poucos.

Em contrapartida, se não tirar o capacete, a astronauta morre asfixiada e seu corpo é largado no chão. Nada de bonito ou interessante acontece, mas fica o gosto amargo para quem tentou se tornar um explorador sem objetivos.

A beleza de Orchids to Dusk está em ser um dos poucos jogos em que o astronauta é impotente. É a desconstrução de uma figura elevada, heroica e corajosa que foi construída por décadas nos games. Ao invés de te dar um chefão para ser aniquilado e voltar para casa, ele só te deixa escolher como e onde morrer.

O título é um pequeno marco de uma virada na imagem do capitão do espaço, já tão enraizada em culturas como a dos Estados Unidos. Criar a beleza na morte com tamanha serenidade e introspecção é uma grande conquista em um jogo tão curto de um tema tão saturado.

Talvez essa obra seja justamente o retorno aos astronautas do Challenger, ao início de tudo. Eles nunca foram astronautas imponentes que lutaram contra todas as adversidades, mas sim humanos que não tiveram escolha senão a morte. A vida deles é sempre lembrada pela NASA e por seus familiares, assim como a memória dos aventureiros caídos em Orchids to Dusk também é por quem joga. A obra acaba não sendo só sobre astronautas e o espaço, mas sim sobre a aceitação da morte e as memórias intocáveis que ela deixa.

Você pode baixar Orchids to Dusk gratuitamente no itch.io. Seu site oficial também contém mais informações sobre os jogos de Pol.

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Bhernardo Viana

Amante do pão de queijo e do cafézim, começou a brincar no meio dos indies e não parou mais. Um grande fã de puzzles e de jogos alternativos, experimentais e malucos. É o Editor-Chefe do Sem Tilt e ex-redator no site e na revista da Indie Game Magazine.