Magic Circle - a soma que é maior que suas partes | Sem Tilt

Magic Circle – a soma que é maior que suas partes


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Magic Circle não é só um jogo. Magic Circle é mais, mas também é menos que um jogo.

Já assistiu Nosferatu (1922)? Esse clássico do cinema, inspirado pela obra Drácula, de Bram Stoker, foi dirigido por F.W. Murnau e conta a história de Conde Orlok, um vampiro que aterroriza a cidade alemã de Wisborg. Setenta e oito anos depois é lançado A Sombra do Vampiro (2000), que retrata a produção do filme de Murnau. Nele é revelado que o ator responsável por interpretar o Conde Orlok, Max Schreck, era de fato um vampiro, contratado pelo diretor de modo a dar maior autenticidade ao filme.

A Sombra do Vampiro é, claro, uma obra de ficção. Contudo, o excelente roteiro e a ainda melhor atuação são capazes de, mesmo por alguns momentos, suspender completamente a descrença na simulação que está se desenrolando na tela. Esses momentos são os mais preciosos para qualquer obra ficcional, quando aquele “mas será…?” surge à mente do espectador e o filme de mentirinha vira um documentário.

Dessa maneira, creio que A Sombra do Vampiro se torna mais que um filme de ficção, emprestando de seu estilo e narrativa características das biopics mas também, ao mesmo tempo, menos que um filme desse tipo, uma vez que a totalidade de sua história não surgiu da mente de seus criadores.

De forma similar funciona Magic Circle, em iguais partes um jogo, um documentário metalinguístico e também uma crítica à indústria dos games.

O jogo toma forma em uma versão inacabada de si próprio, onde testes ocorrem, detalhes são modificados e o protagonista age como um testador. Inimigos habitam esse espaço e, devido a decisões da mente criativa por trás do game, o jogador não recebe armas.

Contudo, graças à ajuda de uma entidade misteriosa (e bem rabugenta) a você é dado o poder de alterar a programação das criaturas, dando-lhes ou removendo atributos. Quer como companheira uma pedra que flutua e solta fogo? Basta recolher essas características de outros seres e imbuí-los ao objeto previamente inerte.

Assim como é de se esperar de um jogo em desenvolvimento, Magic Circle sofre a influência de seus criadores, os deuses desse espaço, que fazem sua presença vista por áudios, diários e até interações mais diretas. Você acompanha as interações desses desenvolvedores, ouve seus dilemas e dificuldades na vida profissional e pessoal. O próprio site é dedicado à criação dessa mitologia que protagoniza: um gênio, criador de um game de sucesso 18 anos antes, uma gamer de grande fama que se torna desenvolvedora, e uma fã dedicada a reviver o que o sucesso do jogo de 18 anos atrás significou para ela. Há até menções de uma campanha estilo Kickstarter que falhou! A experiência é cheia de momentos muito autênticos e sinceros que invocaram o “mas será…?” à mente, trabalhando a imersão a níveis impressionantes.

Próximo ao fim de Magic Circle, uma grande reflexão é colocada com altas doses de crítica na mesa quanto ao pertencimento de um jogo, ou melhor, de qualquer construção cultural. Não poderei elaborar muito sem adentrar em território de spoilers, mas o fato é que Magic Circle traz à tona questões importantes ao mundo dos games. Quem é realmente dono de um jogo: seu idealizador ou a comunidade que o abraçou e o jogou à exaustão? Qual o melhor caminho a ser tomado em uma franquia: novos formatos ou a nostalgia? Infelizmente a obra não é capaz de trazer tais assuntos sem sacrificar seu aspecto mais forte, a imersão. Esses aspectos são transmitidos de maneira forçada, por meio de uma quebra da suspensão de descrença, que lembra o jogador de que aquilo é “só um jogo”. Tudo desaba nesse momento, o jogador é expulso do mundo do game e se percebe olhando para um monitor com uma expressão vazia.

Romper a imersão é um delito grave para qualquer história, mas não posso ser categórico e afirmar que tal fator anulou meu proveito anterior do jogo. Afinal, como disse antes, Magic Circle não é apenas um jogo e, felizmente, é uma experiência que consegue ser maior que a soma de suas três partes. Creio que é improvável alguém não se contentar ou com a jogabilidade fora do comum, ou com a narrativa metalinguística, ou com a aguda crítica que é Magic Circle.

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Daniel Baptista

Apenas um rapaz que acha que videogames podem mudar a maneira que alguém vê o mundo. Gosta de jogos questionadores anseia pelo próximo jogo que vai revolucionar o meio. Acredita piamente de que esse jogo será um indie!