Kingdom - O impotente rei dos surdos | Sem Tilt

Kingdom – O impotente rei dos surdos


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Em Kingdom, você é um rei (ou uma rainha) que foge de um reino distante e busca reinstalar seu domínio. Para isso será necessário construir, defender e expandir seu território. Tudo isso com um direcional e só dois botões.

Desde o princípio, Kingdom se propõe a ser um jogo simples mas desafiador. Com apenas um breve tutorial, você é jogado no cenário de Kingdom sem saber de onde o estoico rei vem ou para onde vai, sua história e suas motivações permanecem não ditas durante todo o jogo e, honestamente, não importam para este game que tem foco total na estética e na jogabilidade acessível. Na própria página online do jogo, ao invés de dar qualquer detalhe sobre a trama, é dito apenas que o game dos desenvolvedores NOIO e LICORICE é “Fácil de jogar, mas difícil de dominar”.

De fato, os desenvolvedores emplacaram fortemente no minimalismo de controles. A jogabilidade é super intuitiva e os comandos são simples. Jogue uma moeda para contratar um transeunte para sua causa. Jogue uma moeda novamente para comprar algum equipamento para seu novo funcionário. Dessa mesma maneira você também manda derrubar árvores e manda seus construtores erguerem e aprimorarem as estruturas que preenchem seus domínios. A herança do jogo originalmente lançado em flash para browsers em 2013 é clara.

Em seu núcleo, Kingdom funciona de maneira similar a um jogo de estratégia em tempo real, assim como Age of Empires, porém em 2D. Todavia, diferente de Age of empires ou Sid Meier’s Civilization, o comandante da ação tem presença física no campo de batalha. Nesse quesito, Kingdom se aproxima mais de Brütal Legend.

Diferente deste último, contanto, o rei de Kingdom jamais entra em combate com os inimigos, ou mesmo exerce comando direto sobre as ações dos seus soldados. O jogador se torna pouco mais que mero espectador na maioria das lutas, o que pode ser muito frustrante, uma vez que caso esteja em perigo, o rei não pode fazer nada mais do que fugir.

E falando em fugir, existe uma mecânica esquisita e que até mesmo destoa do resto da jogabilidade, que é o cansaço da montaria do rei. Corra por mais de cinco segundos e o cavalo começa a ofegar e caminhar com uma velocidade ridícula. Isso é ainda mais agravado pela passagem de dia para noite, que é extremamente veloz. Em diversas situações eu parti de uma extremidade do terreno que eu dominava, ao amanhecer,  para alcançar a outra só depois da noite já ter caído.

E em Kingdom, quando a lua se ergue, monstros atacam.

É extremamente frustrante passar o dia inteiro cavalgando de um lado para o outro do mapa para encontrar parte do seu reino completamente desprotegido e sendo atacado por monstros. Me pergunto o por quê de essa mecânica ter sido introduzida em um jogo tão dependente de locomoção incessante. E “incessante” é de fato a palavra. Você precisará ir constantemente de um canto ao outro do mapa para recrutar mais soldados em um vai e vem bem repetitivo e entediante.

(OBS: Descobri depois que você pode deixar seu cavalo pastar para que a próxima corrida dele seja mais duradoura, mas nesse ponto já estava próximo do fim do jogo)

Os problemas da morosidade de locomoção do jogador poderiam ainda ser combatidos por um controle mais direto sobre as tropas; controle esse que é quase inexistente. Construtores e fazendeiros não podem ser comandados a se proteger de ataques e ficam aguardando pacientemente os monstros roubarem todas as preciosas moedas investidas. Arqueiros, que até os momentos finais do game são a única tropa controlada pelo jogador, ficam empoleirados em torres no centro do reino e não podem ser convocados a tomar a vanguarda para combater inimigos que destroem os muros mais exteriores. Por último há ainda os cavaleiros, que andam tão devagar que você terá sorte se houver alguém vivo quando eles encontrarem o inimigo.

Claro que há também aspectos do jogo dignos de muito elogio, em especial a parte gráfica e de áudio de Kingdom, que são, sinceramente, impressionantes.

Quando apertei “Start” em Kingdom pela primeira vez não pude conter um “Caramba, esse jogo é bonito pra caralho!”. Kingdom é incrivelmente atmosférico. A bela arte pixelada combina de maneira maestral com a trilha sonora. O visual das florestas, das construções e até mesmo dos NPCs é muito atraente e agradável aos olhos, e a música, eletrônica mas discreta, é muito bem composta, transmitindo serenidade em momentos tranquilos e tensão quando uma batalha está para se inflamar.

O rio que corre na parte inferior da tela também é um ótimo recurso para ressaltar a estética medieval tão bem retratada em Kingdom, além de auxiliar na centralização do protagonista na tela de maneira elegante.

As animações das personagens são fluidas e muito únicas. A maneira que um arqueiro se move é distinta dos construtores e agricultores. Os monstros tem charme e seus movimentos estranhos causam uma certa fascinação. E, se sozinhos não parecem tão ameaçadores, quando em grupo farão seu sangue gelar.

Não se pode também esquecer da iluminação, que auxilia muito na composição da verdadeira pintura que é cada screenshot desse jogo. As manhãs são serenas, com suas cores quentes ressaltadas pela luz do Sol no horizonte, e as noites são sinistras, especialmente quando a lua surge no céu, banhando todo o ambiente por uma luz tenebrosa.

Contudo, apesar de todo o cuidado estético e prezo pela facilidade de o jogador pôr a mão na massa, que com certeza exercem enorme atratividade, infelizmente o que fica de Kingdom é uma experiência um pouco rasa e bem repetitiva, quando não frustrante.

A simplicidade nem sempre é um trunfo para o jogo. Kingdom não é mais um jogo em flash, e penso o que poderia ter sido desse jogo se os desenvolvedores tivessem abraçado as novas possibilidades.

2.5

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Daniel Baptista

Apenas um rapaz que acha que videogames podem mudar a maneira que alguém vê o mundo. Gosta de jogos questionadores anseia pelo próximo jogo que vai revolucionar o meio. Acredita piamente de que esse jogo será um indie!