Pokkén e a habilidade de agradar profissionais e button-mashers | Sem Tilt

Pokkén e a habilidade de agradar profissionais e button-mashers


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Minha última aquisição videogamística foi Pokkén Tournament. Esperava um jogo de luta simples em que eu ia sair na porrada com pokémons de maneira mais direta diferente de Super Smash Bros, uma coisa bem button-mashing mesmo (ficar apertando todos os botões de maneira enlouquecida) só para ter o prazer de socar o Lucario na cara. O que não esperava era encontrar um jogo de luta complexo, com fases diferentes de combate, combos avançados e um sistema de balanceamento envolvendo ataques, contra ataques e agarrões à la jokenpô, além de mecânicas que aperfeiçoam elementos da série principal.

Se você é fã de jogos de luta elaborados com uma jogabilidade profunda e elementos estratégicos intricados, como pokémons ajudantes com três formas diferentes de interação na batalha e diversos tipos de apoio moral da sua professora no jogo (sério), Pokkén Tournament é uma ótima escolha. Quando foi anunciado que ele ia ser um dos jogos da EVO 2016 eu dei risada achando que a Pokémon Company jogou uns pacotes de Rare Candies para os organizadores do evento para convencê-los, mas agora que joguei o game acho que foi uma ótima escolha e estou ansioso para acompanhar as lutas de alto nível que acontecerão.

Tendo dito tudo isso, sabem o que eu também encontrei em Pokkén Tournament? Um jogo de luta simples em que consigo sair na porrada com pokémons de maneira mais direta, fazendo sempre o mesmo combo com todos os personagens para ganhar os modos single player e que mesmo minha prima de treze anos, que nunca se entendeu muito bem com jogos de luta, adorou o jogo e consegue jogar de igual para igual comigo só na base do button-mashing. Além disso, tem umas animações muito sensacionais nos ataques especiais dos lutadores (chamados Synergy Burst Moves), o que sempre é um atrativo para jogadores mais casuais de jogos de luta. O fato de só precisar apertar dois botões juntos (o R e o L, na configuração padrão) para executá-los mostra que eles foram pensados mesmo nesse público, principalmente se compararmos com a complexidade dos especiais de outros jogos como Street Fighter e King of Fighters.

Sem contar a minha felicidade de finalmente ver o Machamp, um dos meus pokémons lutadores favoritos, finalmente ganhar algum destaque. Se tivesse o Hitmonchan também ia ser o melhor spin-off de Pokémon de todos os tempos, mas nem tudo é perfeito, e Pokémon Conquest pode manter a sua coroa intacta.

Essa disparidade das maneiras como Pokkén Tournament pode ser jogado, de maneira elaborada por entusiastas ou de maneira caótica por novatos, me fez refletir sobre como a jogabilidade de um game pode ser profunda sem deixar de ser recompensadora e divertida para todos os jogadores.

Um jogador dedicado que aprende as mecânicas minuciosamente e desenvolve suas habilidades é recompensado com partidas intricadas e desafiadoras contra outros aficcionados, reconhecimento dentro da comunidade e, muitas vezes, dentro do próprio jogo através de achievements difíceis e rankings. Já um jogador casual, que só quer chegar ao final da história, ganhar os modos single player e ter partidas levianas e divertidas com seus amigos igualmente casuais, é recompensado com o final da história, animações exageradas e achievements mais simples. Um jogo bem feito, com uma jogabilidade bem equilibrada, sabe agradar a todos.

Este foi um dos assuntos da palestra que Atsushi Inaba, um dos fundadores da Platinum Games e produtor de jogos como Bayonetta e Metal Gear Rising: Revengeance, deu na Game Developer’s Conference deste ano. Discutindo como o estúdio trabalha diversos aspectos dos seus jogos de ação, Inaba afirmou que é muito importante para eles que seus jogos sejam “termináveis” por todos, independente do nível de habilidade, mas que os jogadores avançados encontrem um sistema onde possam desenvolver sua capacidade e atingir uma destreza que nem mesmo eles esperavam. Ao invés de criar histórias desnecessariamente longas, missões secundárias repetitivas ou forçar situações que precisem de grinding, o objetivo da Platinum é que seus jogos tenham uma vida longa porque os jogadores sentem que estão crescendo, aprendendo e se desenvolvendo dentro das suas mecânicas, e querem continuar melhorando sempre.

O sistema de combos de Bayonetta é um exemplo de mecânica que recompensa a dedicação do jogador.

É assim, ao meu ver, que surgem os experts. Todo mundo começa como um casual, se divertindo sem pensar muito em detalhes do jogo, mas aos poucos vai aprendendo mais sobre as mecânicas e, se o game conecta com o jogador, ele decide aprender e se desenvolver mais e a querer desafios maiores. Jogos bons e com uma jogabilidade bem elaborada muitas vezes criam uma comunidade dedicada dessa maneira, alimentando esse lado humano de querer aprender, melhorar e ser reconhecido.

Também é por isso que elementos mais simplificados, voltados para iniciantes, são importantes. Como, por exemplo, as opções de customização dos controles de Street Fighter IV, que permitem um único botão equivaler aos três botões de soco ou os três botões de chute, facilitando a execução dos Ultra Combos. Não duvido que muito campeão tenha começado se aproveitando desse tipo de mecânica facilitadora.

Pokkén Tournament é um desses jogos com uma jogabilidade bem construída, capaz de agradar casuais, entusiastas e, o mais importante, os novatos que querem se tornar experts. Por enquanto ainda sou um iniciante tosco soltando os especiais assim que dá, repetindo sempre o mesmo combo básico e só chamando os pokémons assistentes na hora do desespero. Mas já estou começando a estudar mais outros combos, ver vídeos de jogadores mais avançados e testar estratégias diferentes com os assistentes. Não creio que eu vá virar o Daigo Umehara de Pokkén, mas aos poucos sinto que estou melhorando. Até porque estou começando a ficar de saco cheio de levar porrada do Pikachu Libre da minha prima. Se alguém da minha família vai algum dia participar de um campeonato, suspeito que seja ela.

Meu grande obstáculo a ser superado.

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Vitor Takayanagi

O melhor meio de conhecer uma pessoa é pelos Pokémons que ela escolheu. Os meus foram: Squirtle, Cyndaquil, Torchic, Turtwig, Snivy e Froakie. Muito prazer. Caso interessar, visitem meu blog (só clicar no botãozinho aí no canto superior direito).