Gráficos ou profundidade, Gnomoria ou Dwarf Fortress? | Sem Tilt

Gráficos ou profundidade, Gnomoria ou Dwarf Fortress?


Gnomoria_Fortress

Antes de falar sobre Gnomoria, devo contar uma história. Muito tempo atrás, em 2002, uma pessoa resolveu criar sozinha um jogo gratuito, um simulador sandbox de terras fantásticas em que o jogador poderia administrar o início de uma fortaleza de anões, começando com uma pequena expedição vinda da terra mãe ou se aventurar nesse mundo visitando até mesmo sua cidade no estilo dungeon crawler. Além de ser praticamente dois jogos em um, o título é tão detalhado quanto a saga de O Senhor dos Anéis, de Tolkien, onde até o tipo da madeira da roda da carroça do Gandalf importa.

Embora o jogo seja só ordenar o que você quer que os anões façam, como se cada anão fosse um personagem de Minecraft visto de cima, o jogo inteiro era, e ainda é, em ASCII. Ou seja, o jogo era feito com os caracteres de texto de computador. Este é Dwarf Fortress.

O problema nesse jogo é que nem eu, nem você e nem ninguém no mundo, em pleno Século XXI e que olhe para isso pela primeira vez sem legendas, deve entender que os caracteres “g” coloridos são uma representação de grupos de goblins prestes a invadir seu forte. A interface praticamente inexistente junta com a falta de um tutorial necessário dentro do jogo, visto sua íngreme curva de aprendizagem, são as duas principais razões que o mantêm pouco conhecido e até mesmo visto como um jogo desatualizado, mesmo estando em desenvolvimento até hoje.

Porém, há não muito tempo, em 2011, Gnomoria surgiu em versão pública, que no final do mês passado saiu do acesso antecipado, com moldes de administração bem similares a Dwarf Fortress. É claro que pelo jogo em ASCII ter iniciado seu desenvolvimento quase uma década antes, toda sua complexidade, profundidade e riqueza em detalhes, como poesias, civilizações, lendas, heróis, vilões e a história do mundo gerada proceduralmente não estão presentes em Gnomoria. Ao contrário, este possui nativamente uma interface gráfica muito mais amigável ao utilizar gráficos de verdade, como goblins que aparecem despedaçados depois de uma invasão fracassada ou botões de contexto para construir uma oficina ou designar uma tarefa em uma área, e não só caracteres coloridos, algo que mesmo para quem está acostumado com ASCII faz uma enorme diferença.

Ao iniciar um mundo, você começa com um casal de iaques, ferramentas, sementes, suprimentos para alguns dias e uma dezena de gnomos muito parecidos com anões. Cada um tem suas habilidades e realizam tarefas de acordo com sua profissão, ficando cada vez melhores naquela tarefa com o tempo. Por ser um jogo sandbox, você ordena essas tarefas do jeito que quiser, desde construir uma carpintaria, produzir vinho e cerveja, cavar para dentro de uma montanha ou para baixo da terra, derrubar as árvores em uma área e plantar trigo em todo o mapa até estocar tudo para o inverno, encher as cavernas de tochas para evitar de aparecer inimigos no escuro, treinar um pequeno exército para se defender de possíveis inimigos, cercar seu reino com um muro feito de qualquer material sólido, cavar uma montanha até virar uma planície ou construir uma ilha flutuante para deixar o castelo lá… tudo o que você faria manualmente em um Minecraft é feito por meio de seus gnomos. Infelizmente, os defeitos na inteligência artificial dos gnomos em Gnomoria, por vezes, atrapalham o jogo, o que pode interromper toda a expansão do reino. Por exemplo, o seu minerador pode ficar preso ao cavar para baixo, e ele só vai escavar uma rampa para voltar ao trabalho quando você ordenar isso, fazendo com que ele demore mais para cortar as pedras para montar as mesas da sua oficina de mecânico. A quantidade de processamento que o jogo requer aumenta consideravelmente com um reino grande e com sua expansão, porém ambos esses problemas podem ser resolvidos com um bom computador e atenção ao gerir os gnomos, o que faz a experiência final não ser muito afetada por isso.

E embora não seja dificil como um Dwarf Fortress, Gnomoria também não possui um tutorial dentro do jogo, o que obriga o jogador a descobrir na prática ou buscar online informações importantes, como quais inimigos só surgem no escuro ou em bordas do mapa, que gnomos próximos de um defunto podem parar de trabalhar porque ficaram infelizes, ou que as teclas de vírgula e ponto final rotacionam a câmera em 90º.

Conforme seu reino cresce, mais gnomos são atraídos de fora, mais mercadores dos reinos vizinhos aparecem, e também maior é o interesse despertado nos seus inimigos, desde outros goblins roubando seus bens valiosos, louva-a-deus gigantes de olho no seu estoque de comida e até golens vindos das pedras que você mesmo extraiu das montanhas. Mas até lá, você poderá ver isometricamente a bela fortaleza que você fez para frear qualquer invasão ao seu reino.

Por fim, Gnomoria é como um Dwarf Fortress que teve toda sua complexidade e profundidade trocados por uma interface prática e amigável, tornando a experiência do jogo, especialmente na primeira vez, muito mais agradável. Mas ainda sim, para os poucos que transcendem a necessidade de gráficos bonitos, ou para os que não ligam de baixar vários arquivos extras para conseguir ver além dos caracteres coloridos, Dwarf Fortress ganha pela vasta quantidade de detalhismo.

Você pode comprar Gnomoria na Steam por R$ 27,99, para Windows e Mac.

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Rodrigo Consoli

Gamer desde os 7 anos, sempre disposto a explorar coisas novas ou diferentes do que eu já conheço. Já que não achei uma faculdade de magia reconhecida pelo MEC, fico como cientista mesmo...