Como Framed joga com a narrativa de quadrinhos | Sem Tilt

Como Framed joga com a narrativa de quadrinhos


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Imagine que você está lendo uma história em quadrinhos. É um mistério com um clima noir envolvendo uma grande perseguição ao personagem principal, que leva consigo com uma maleta com um conteúdo valioso. Em determinado momento, nosso herói (ou anti-herói, já que está sendo perseguido pela polícia) acaba virando uma esquina e indo de cara em um policial, que o aguardava numa emboscada. Ele é preso e sua aventura, aparentemente, termina aí.

“Se ao menos ele tivesse entrado pela porta entreaberta daquela casa”, pensa você, com pena do nosso anti-herói. “Já sei!” exclama você, exaltado. Com uma tesoura em mãos, você recorta a página da sua graphic novel de capa dura em papel couchê brilhante e muda a ordem dos quadros. Então, para a surpresa do universo, a história muda, e o fugitivo escapou da armadilha dos policiais e continuou sua épica fuga com sua valise misteriosa.

Isso não seria possível no mundo real. Sério, nem tente, não estrague nem os seus e nem os gibis de ninguém. Mas essa é a premissa de Framed, um jogo indie para tablets criado pelo estúdio australiano Loveshack Entertainment (antes que alguém pergunte, não, não é um simulador de destruição de gibis). Nele acompanhamos a história que descrevi, do nosso anti-herói em fuga, que é contada com uma combinação de quadrinhos e animação, e temos que organizar os quadros de cada página para que ele consiga escapar da polícia.

Nós assistimos a ação acontecer por uma página, quadrinho a quadrinho, com uma animação curta acontecendo em cada. Em algum momento da página, o personagem com a maleta ou é preso ou morre. Assim que isso acontece, devemos reordenar os quadros até criarmos uma narrativa em que ele consiga escapar, para na próxima página repetirmos o processo.

Novas mecânicas são introduzidas durante o jogo, como a possibilidade de rodar quadros e de mudar a ordem deles enquanto as animações ocorrem, mas o básico permanece o mesmo.

De um ponto de vista reducionista, Framed é apenas outro exemplo daquilo que chamo de “puzzle de ordenação”, um desafio em que a solução consiste em realizar certos procedimentos em uma ordem específica. No caso, precisamos descobrir a ordem certa dos quadros para o fugitivo conseguir escapar. Outro exemplo é The Bridge, um jogo ótimo para relaxar, em que precisamos conduzir o personagem principal pelo cenário, alterando a gravidade e interagindo com objetos na ordem correta até encontrar a saída. Passo um, passo dois, passo três, sucesso. Simples assim.

Mas Framed possui algo que o diferencia e o torna especial, que é justamente a brincadeira que ele faz com a narrativa em quadrinhos.

Para entender isso, vamos falar um pouco sobre narrativa em quadrinhos. É um assunto complexo e muito rico, e seria muito difícil desenvolvê-lo profundamente aqui, mas dá para trabalhar o conceito de maneira resumida no contexto de Framed. Vou usar como base o trabalho do quadrinhista e teórico Scott McCloud, autor de livros como Desvendando os Quadrinhos e Reinventando os Quadrinhos. E se você se interessa no assunto, recomendo muito a leitura de suas obras.

Scott McCloud (ou melhor, como ele se desenha) em trecho de Desvendando os Quadrinhos

Para McCloud, um dos aspectos mais importantes da narrativa em quadrinhos é como o nosso cérebro conclui a ação. Se formos olhar cada quadro de uma HQ separadamente, eles são, guardadas as devidas proporções, como as pinturas que vemos em museus, ou seja, imagens que ilustram uma pessoa, um lugar, objeto, um acontecimento, etc. Alguns possuem um suporte de texto, outros não. Muitos até contam uma pequena história ou passam uma idéia, e muitos inclusive passam a sensação de movimento. Todavia, quando os colocamos numa página ou os vemos um depois do outro num monitor ou tablet, nosso cérebro começa a encontrar um padrão narrativo entre eles, costurando os acontecimentos desses desenhos isolados numa história. E, diferentemente da animação ou do cinema, onde a ação ocorre continuamente com um suporte mecânico, como um rolo de filme, e a ligação entre cada quadro acontece de maneira imperceptível, nos quadrinhos é o leitor quem ativamente constrói a ação, indo de quadro em quadro e montando a história em sua mente.

Aqui que entra a genialidade da jogabilidade de Framed. Mesmo se o jogador não conhece o funcionamento de uma história em quadrinhos, as primeiras fases são um tutorial ensinando isso, e assim todos sabem que um quadro está ligado ao outro e que estão construindo uma história. Então, ao introduzir a idéia de mudar a ordem dos quadros e fazer com que nós ativamente busquemos resolver e avançar a história, ele transforma o ato de narrar uma história em quadrinhos num jogo. O jogador se torna o narrador, e seu objetivo é contar o fim da aventura do nosso anti-herói e sua valise.

Muitos games contam uma história na qual o jogador é ou decide pelo personagem principal, alterando o desenvolvimento dessa. Framed encontrou uma maneira de contar uma história em que o jogador é o narrador usando a narrativa dos quadrinhos como uma mecânica. Nós vemos os quadros, entendemos a ordem das ações que acontecem neles e os alteramos para construir a história. Com uma maneira nova de experimentar tanto narrativa em quadrinhos quanto narrativa em games, Framed é um jogo muito interessante para quem curte essas duas artes.

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Vitor Takayanagi

O melhor meio de conhecer uma pessoa é pelos Pokémons que ela escolheu. Os meus foram: Squirtle, Cyndaquil, Torchic, Turtwig, Snivy e Froakie. Muito prazer. Caso interessar, visitem meu blog (só clicar no botãozinho aí no canto superior direito).