Project AM2R, um fangame de Metroid 2, está morto | Sem Tilt

Project AM2R, um fangame de Metroid 2, está morto


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Sempre temos marcado na nossa memória aquele jogo antigo que com o tempo foi deixado de lado pela empresa que o desenvolveu. Além da memória, só podemos nos contentar, hoje em dia, com  sua versão de emulador.

Assim como vários já fizeram, você, com o tempo, disposição e recursos necessários, certamente faria um jogo em homenagem a ele. Seria um fangame, um remake, uma nova versão de um jogo já existente, mas feito por fãs de fora da empresa – como você – que desenvolveu o título original. Depois de alguns anos de trabalho árduo, esse remake está finalizado e está lindo, quase sem bugs, e com todo o carinho de um fã. O link para download é disponibilizado sem fins lucrativos de sua parte, porém logo no dia seguinte surge a mesma empresa, aquela pra qual você implorou tanto para fazer o que você realizou por conta própria, e tira do ar o download que é fruto de tanto tempo e dedicação.

Embora pareça uma história com um final aparentemente triste para o desenvolvedor, é basicamente isso que aconteceu no dia 7 de agosto. A história acima tem os nomes genéricos trocados por Project AM2R(2016), o fangame; Milton ‘DoctorM64″ Guasti, desenvolvedor responsável pelo remake; Metroid 2: Return of Samus(1991) como o jogo original; e, obviamente, a Nintendo como a empresa responsável pelo Metroid e que exigiu o fechamento dos servidores de download do remake.

AM2R reproduz a essência do Metroid 2, que é erradicar os metroids do planeta SR388, em um jogo de ação em plataformas, mas com a jogabilidade mais ágil de Metroid Zero Mission(2004) para GBA. Comparativamente, o remake é uma melhora ou atualização em todos os aspectos sobre Metroid 2: arte com mais cores e maior resolução, detalhes gráficos como o gotejar nas cavernas, animações mais fluidas e sons que não mais parecem só um monte de chiptune ultrapassado, mas ajudam de verdade na imersão do ambiente alienígena. A tela mostra uma área maior do mapa, a Samus responde melhor e mais rapidamente aos comandos e até permite atirar em 8 direções como no Zero Mission ao invés de só 4. Só de ver a imagem de comparação já dá pra ter uma boa noção do tamanho da melhora que, ao mesmo tempo, manteve o conteúdo principal.

Foi um amigo meu que me mostrou o Project AM2R na data do seu lançamento, 6 de agosto, propositalmente no aniversário de 30 anos de Metroid, e descobri no dia seguinte que o jogo já não estava mais disponível por ordens da Nintendo. Me aborreci com a atitude bem comum da Nintendo por me privar de jogar um jogo pronto, gratuito, e visualmente superior e mais atraente que o original. Como ela pode fazer uma coisa dessas com um remake sem fins lucrativos no dia seguinte ao lançamento, após mais de 8 anos em desenvolvimento, para comemorar o aniversário exato de 30 anos da série Metroid?

Antes de odiar a Nintendo pelos seus atos, inicialmente precisamos entender melhor o que aconteceu: nos meios legais existe a propriedade intelectual, que se refere a uma obra, invenção, marca, performance ou criação humana qualquer que é capitalizada pelos seus criadores, e esta criação, assim como seu criador, é protegida por direitos e acordos legais estabelecidos pela Convenção da OMPI, garantindo que ninguém use ou abuse das suas propriedades. Isso significa que desligar o Project AM2R está dentro dos direitos da Nintendo, assim como aconteceu com tantas outras criações feitas por seus fãs.Outras empresas também o fizeram, como a Disney tirando das lojas de apps para celular os jogos Tiny Death Star(2013) e Star Wars: Assault Team(2014).

Alguns podem dizer: “Mas isso é um desrespeito com o criador e seu trabalho!”. Pode até ser, porém não fazer nada a respeito também seria um erro da Nintendo consigo mesma. Por exemplo, suponha que você criou uma série de bichinhos de pelúcia de “animais sem pescoço” e está vendendo com um razoável sucesso, até descobrir que uma outra pessoa está distribuindo bichinhos iguais aos seus, mas de graça. Está dentro do seu direito interromper a produção dessa outra pessoa, então o que fazer: cortar a produção dos bichinhos do concorrente e continuar a vender os seus, ou não interferir e ver sua fábrica de bichinhos de pelúcia, com décadas de tradição, ir à falência?

“Mas pode existir um meio termo!” Sim, e pessoalmente eu concordo com isso. A SEGA, por exemplo, fez um acordo com Christian Whitehead, um outro desenvolvedor independente, para fazer remakes e melhorias nos jogos de Sonic desde 2011. Outro exemplo é do Resident Evil 2(1998): ainda em 2014, a InvaderGames, um grupo italiano de desenvolvedores independentes, iniciou o projeto Resident Evil 2 Reborn, um remake de Resident Evil 2. Pouco menos de um ano depois, a Capcom entrou em contato com o grupo pedindo para que interrompessem o desenvolvimento do projeto, pois a própria empresa já estava a desenvolver o remake do jogo. E mais ainda, convidou o grupo para visitar e fazer parte ativamente do remake dentro da Capcom, como informado na página do grupo italiano.

 Já sabemos que a Nintendo não perdoa fã-makes de seus jogos, e mesmo com Guasti insistindo em seu próprio blog para não odiarmos a Nintendo por proteger suas propriedades intelectuais, tenho certeza que vários estão ou já estavam bastante descontentes com a empresa, e dificilmente essa opinião irá mudar nos próximos anos enquanto ela não seguir os exemplos da Capcom e SEGA. Ao menos a versão em torrent do jogo ainda existe para quem gosta.

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Rodrigo Consoli

Gamer desde os 7 anos, sempre disposto a explorar coisas novas ou diferentes do que eu já conheço. Já que não achei uma faculdade de magia reconhecida pelo MEC, fico como cientista mesmo...