Análise Dupla de Armello - Me dá um escudo, nunca te pedi nada | Sem Tilt

Análise Dupla de Armello – Me dá um escudo, nunca te pedi nada


Se você acompanha o Sem Tilt já deve saber que aqui nós gostamos de falar sobre várias coisas. Aqui existe espaço para aquele card game que desafia sua capacidade de planejamento, anunciamos a adaptação de um famoso jogo de tabuleiro para terras brasileiras e também fazemos uma análise caprichada daquele game que está balançando o mundo dos indies. Talvez seja exatamente por isso que a desenvolvedora League of Geeks tenha chamado nossa atenção com Armello, um RPG de estratégia que se inspira imensamente em jogos de tabuleiro e acontece dentro de um universo de fábulas fantásticas.

Das aldeias que circulam o castelo até às vilas que se escondem ao lado de antigas catacumbas, conflitos começam a emergir, e grande parte deles graças às ações desumanas das tropas reais. As quatro principais casas do reino, os ratos, coelhos, lobos e ursos, acreditam que o grande rei está louco, corrompido pela Podridão, uma força mística há muito adormecida. É assim que os clãs iniciam a corrida pelo trono, passando por cima de todos aqueles que surgirem em seu caminho. Parece Game of Thrones, não? Bom, basta imaginar que todas as personagens são animais que parecem ter vindo de um belíssimo clássico da Disney que você passa a ter uma noção do mundo de Armello.

Cada jogador possui Pontos de Ação que são utilizados para se movimentar no tabuleiro. Durante seus turnos, os candidatos ao trono podem completar quests, capturar vilas, recrutar seguidores, explorar dungeons, encontrar tesouros ou até mesmo derrotar outros jogadores em combate. No início de seu turno, o jogador deve sacar um número de cartas igual à sua inteligência, que podem servir como melhorias na batalha, ataques – ou ajuda – aos inimigos e até mesmo armadilhas nos terrenos, os chamados Perigos. Tanto nas batalhas quando na tentativa de fuga dos perigos é necessário rodar dados, sendo cada uma das faces equivalente a um símbolo. Supondo que o Perigo exija os símbolos da Lua e do Sol, é necessário que o jogador rode no mínimo dois dados que apresentem essas faces. Existem 4 condições de vitória em Armello: invadir o castelo e matar o rei; tornar-se mais corrompido que o próprio rei, acumulando mais pontos de Podridão que ele e vencendo o mesmo em combate em seguida; juntando 4 Pedras Espirituais e purificando o rei; ou possuir o maior Prestígio do rei até o momento de sua morte, que acontece depois de 9 dias. Já que existe uma mecânica de dia e noite, isso acontece em 18 turnos dos jogadores.

Armello busca incentivar os jogadores a terem uma experiência multiplayer online e local. Pensando nisso, dois membros de nossa equipe, Victor e Bhernardo, jogaram juntos algumas partidas e escreveram suas opiniões. O resultado é nossa primeira análise dupla, em que você poderá conferir dois diferentes pontos de vista sobre o mesmo jogo em um único texto.

Victor – A história do game é contada por animações 2D de altíssima qualidade, apresentando as personagens principais e os cenários da trama. Durante a partida, você é transportado para um tabuleiro 3D no qual se desenrola a partida que,  mesmo com alguns modelos de baixa resolução, não perde a essência que o universo busca transmitir, até porque as cartas e caixas de diálogo de cada um dos animais que compõem o enredo mantém o belo design das gravuras 2D. Tudo isso acaba sendo intensificado graças à trilha sonora do título, composta por músicas instrumentais que se encaixam bem neste conto mágico, seja com trilhas mais intensas durante as batalhas ou com temas mais calmos nas jogadas feitas durante a manhã.

Como em todas as situações, não devemos julgar o livro apenas pela capa, porém o ótimo trabalho feito pela League of Geeks com os aspectos visuais do game foi carregado para o gameplay. Antes de mais nada, é necessário esclarecer que Armello é um jogo complexo. Misturar aspectos tão distintos em uma única experiência exige que o jogador tenha que lidar com diversas informações simultaneamente, o que confunde qualquer principiante e garante falhas decisivas nas primeiras partidas. Contudo, o tutorial do game situa o jogador gradativamente no tabuleiro em 4 curtos episódios, sendo que em cada um deles você assume o controle de um personagem diferente, lidando com aspectos específicos da estrutura de jogo.

Apesar da minha inexperiência com jogos de estratégia, não enxerguei a complexidade inicial de Armello como um problema. A interatividade dos tutoriais permite uma familiarização rápida com os sistemas que regem o jogo, e qualquer dúvida a respeito de algum atributo ou carta pode ser sanada ao deixar o cursor do mouse sobre o ícone por um tempo para que surja uma breve descrição da mecânica em questão. Ao compreender a dinâmica, basta definir qual dos quatro caminhos seguir e esforçar-se para não cair nas armadilhas dos inimigos, o que pode ser muito difícil para os jogadores que não souberem guardar as cartas de seu deck.

Em minhas partidas, duas coisas fizeram com que o jogo ficasse um pouco mais difícil e me levassem a momentos de frustração: a possibilidade de morte simultânea e as probabilidades de determinados Perigos. Várias vezes, ao derrotar os Nefastos, meu personagem acabava sendo morto mesmo após destruí-los e ter gasto cartas úteis, o que acabava com todo o progresso feito nos últimos turnos. Além disso, existem missões que só podem ser cumpridas ao vencer um perigo optando pelo caminho mais arriscado. Porém, em todas as vezes que passei por uma situação do tipo a maior porcentagem de acerto com a qual me deparei foi de 60%, de modo que objetivos importantes como capturar uma das Pedras Espirituais não eram atingidos. Talvez se o jogo oferecesse alguma mecânica fixa para dar mais sorte ao jogador nessas situações meus gritos de raiva teriam sido suprimidos.

Desde o mês passado a PlayStation Plus, que sempre oferece jogos gratuitos para seus assinantes, passou a realizar uma votação entre três jogos para que um fosse incluído gratuitamente na biblioteca dos donos de um PS4. Armello foi um dos competidores, porém a competição desleal com Grow Home não permitiu que mais pessoas conhecessem este incrível jogo de estratégia. Os visuais, a profundidade do gameplay, os desafios ao jogador e o tom da narrativa criada pelo próprio jogador fazem desta obra prima da League of Geeks uma obrigatoriedade aos aficionados por jogos de tabuleiro. Nota: 4,5

Bhernardo – Ao primeiro contato, sem sombra de dúvidas o que mais chama a atenção é a arte do jogo. Todas as personagens parecem ter saído de livros ilustrados de conto de fadas, com ursos mágicos, lobos arqueiros, coelhos lutadores e ratos trapaceiros. O efeito de névoa que é usado sobre o tabuleiro chega, em alguns momentos, a fazer com que aquelas imagens pareçam ter saído de um sonho. Os sons, que lembram alguns usados em jogos como Age of Empires, tornam todas as batalhas menos inocentes e mais épicas, aumentando a tensão e provocando alívio nos momentos certos. Sem dúvidas a linda e detalhada arte é um dos pontos fortes de Armello, e o diálogo desse visual com o som é impecável.

As mecânicas do jogo são complexas, e é notável que ele não quer te dar uma estratégia fixa e nem um padrão de movimentos e caminhos para alcançar a vitória. Como foi dito, há quatro formas de conquistar a vitória, e todas elas parecem razoavelmente viáveis com exceção de exceder os pontos de Podridão do rei. Os pontos de Podridão podem ser acumulados ao morrer para os Nefastos, que aparecem espontaneamente nos calabouços no ciclo da noite de um turno, ou através de determinadas cartas que dão pontos de podridão ao serem usadas. O problema é que o rei ganha um ponto de podridão automaticamente a cada noite, o que não acontece com os jogadores. É muito difícil acumular estes pontos antes do rei, já que não são muitas as cartas que dão estes pontos e nem muitos Nefastos que aparecem no mapa. Cumprir missões e derrotar inimigos para ganhar o prestígio do rei e, consequentemente, um bônus a cada aurora parece um caminho mais vantajoso e rápido.

O sistema de batalha do jogo, como em outros jogos de tabuleiro, é baseado em dados cujas faces podem significar defesas ou ataques. Essa aleatoriedade pode ser diminuída com itens equipados ou queimando cartas da sua mão para fixar uma das faces do dado durante o combate. Apesar de aleatório, os desenvolvedores parecem ter feito o máximo para que os combates tornem-se menos frustrantes e que também dependam da estratégia, já que a pergunta “será que vale a pena eu usar essa carta?” é mais recorrente do que parece. Além disso, batalhas em que ambos os jogadores morrem também são bem frequentes.

Apesar do pequeno problema do caminho da Podridão, Armello mostra um dinamismo que vi apenas em jogos de tabuleiro, e que na minha opinião o torna mais um jogo de tabuleiro digital do que um RPG de estratégia. Viradas de mesa de um turno pro outro são fáceis de acontecer e, às vezes, aquele jogador que ficou quieto o jogo inteiro pode fazer uma repentina invasão no castelo do rei, matá-lo e ganhar o jogo mesmo você tendo 10 pontos de prestígio a mais do que ele.

O maior problema que tive com o jogo foi com a visualização das cartas. Em resoluções menores, é muito complicado conseguir ler o que está realmente escrito nelas, e isso pode ser a diferença entre curar-se em dois pontos de vida ou se matar por perder dois pontos de vida porque você não viu o sinal de menos antes do número – e isso aconteceu algumas vezes comigo até que eu decorasse o nome da carta e seus efeitos. Como morrer no jogo resulta em voltar à posição inicial do mapa e perder pontos de Prestígio, esses erros causados por um próprio defeito da interface tornam-se uma punição severa demais e até desmotivadora se você estiver jogando para vencer. Faltou um sistema de zoom e ampliação dos textos das cartas, ou algo similar.

Armello é uma obra prima dos jogos de estratégia. Várias possibilidades de vitória e estratégias, dinamismo e uma arte que harmoniza com todo o resto. Tenha em mente que Armello é um jogo de tabuleiro colocado na tela do computador, e como ele não é um party game, espere por uma hora ou mais a cada partida. Se você não está acostumado com jogos de tabuleiro ou outros jogos longos de estratégia para PC, isso talvez te afaste de Armello completamente, e eu não recomendaria o jogo para você. Se isso não te assusta, você não vai se arrepender de abrir a carteira para comprar esse jogo. Nota: 4,5


Desenvolvedora/Distribuidora: League of Geeks
Plataformas: PC, Mac, Linux, PS4
Steam: http://store.steampowered.com/app/290340
Preço: R$39,90

Prós

• Visuais perfeitos para a atmosfera fantástica do jogo;
• Gameplay complexo e interessante;
• Combate estratégico, apesar de depender da sorte nos dados;
• Várias condições de vitória.

Contras

• Partidas longas para quem não está acostumado com jogos de tabuleiro;
• A vitória por Podridão é lenta se comparada às outras;
• Mortes em empates podem se tornar frustrantes.

4.5

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VH Capelini

Vindo das longínquas terras do Paraná, este jovem estudante de relações públicas leva uma vida baseada em derrotas humilhantes em Heartstone e mortes infindáveis em Bloodborne. Gosta de batata, de estudar e de indie games - principalmente puzzles e sidescrollers.