Análise e entrevista de The Guilt and the Shadow - Arte e arrependimento | Sem Tilt

Análise e entrevista de The Guilt and the Shadow – Arte e arrependimento


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Dor, sofrimento, loucura e solidão. Já faz certo tempo que os videogames têm procurado – da maneira mais direta possível –  reproduzir nossos maiores medos e fraquezas. Clássicos do terror moderno, como Fatal Frame e Silent Hill, nunca economizaram no número de bestas, demônios e assombrações em sua missão de aterrorizar todos aqueles se aventurassem por seus universos. Embora bem sucedido, este tipo de abordagem sempre me deixou ansiando por um jogo que pudesse, sem recorrer a jumpscares ou violência gratuita, explorar os cantos mais obscuros da mente humana.

The Guilt and the Shadow, criação dos curitibanos Frederico Machuca e Luiz Rodolfo Annes é, sem sombra de dúvida, o jogo que eu procurava. O puzzle platformer, lançado no mês passado na Steam para PC e Mac, conta sua angustiante estória através de uma narrativa altamente simbólica, capaz de envolver e instigar o jogador do começo ao fim.

“Os temas mais recorrentes das minhas estórias, desenhos e pequenas narrativas são a solidão, sonhos, morte e a fina linha que existe entre a loucura e a sanidade”, conta o artista plástico Luiz Rodolfo Annes. E são exatamente estes temas que compõem o fascinante enredo de The Guilt and the Shadow. Controlamos um homem perdido em seu próprio imaginário, constantemente atormentado por eventos passados. Sua triste estória vai sendo contada através de pequenos fragmentos e lembranças espalhados por entre os cenários, uma abordagem subjetiva que combina mais do que perfeitamente com a proposta do jogo.

“Essa questão das páginas e das frases soltas condiz com o contexto do personagem – o que ele está passando, onde ele está, o que está sentindo”, explica o designer e artista Frederico Machuca. “Não fazia sentido, na nossa cabeça, termos um narrador, já que queríamos contar nossa estória exclusivamente do ponto de vista do protagonista: coisas que ele mesmo escreveu, as vozes que aparecem na cabeça dele, etc.”

Segundo Machuca, o tema do jogo foi um dos maiores motivos de preocupação durante o desenvolvimento de The Guilt and the Shadow. “Temos que ser muito delicados ao lidar com assuntos como morte e doenças psicológicas. Sempre quisemos fazer uma coisa sutil, sem ofender ninguém. Pesquisamos muito sobre esquizofrenia, vendo vídeos e lendo diversos textos sobre o assunto, por exemplo. Enfim, devido à grande importância da estória e a natureza do tema, essa foi definitivamente a parte mais complicada do desenvolvimento.”

Fortemente atrelados à narrativa estão os belos visuais do jogo. Os traços de Annes, responsável por todos os cenários e efeitos de The Guilt and the Shadow, são delicados e cheios de detalhes, compondo melancólicas e desoladas paisagens repletas de simbologias. Temos olhos em chamas que não param de nos observar, rostos e mais rostos com feições distorcidas e muitos outros pormenores verdadeiramente angustiantes. “Eu queria transmitir, através do visual, os transtornos, dificuldades e emoções do personagem”, diz o artista plástico.

Machuca explica que a ideia de fazer o jogo surgiu a partir de uma estória escrita por Annes em 2013. ” O Luiz veio com um conto e tivemos a ideia de fazer um jogo a partir dos desenhos dele. Tentamos a partir daí, adaptar esses desenhos, que não eram feitos para games, e tentar transformá-los no que vemos no produto final. Esse conto falava sobre um homem que havia tirado a vida de uma pessoa, e, arrependido, entrara numa aventura atrás de uma semente mágica com o poder de transformá-lo num herói. O jogo começou a partir dessa ideia, mas com o passar do tempo foi se transformando e virou algo completamente diferente.”

The Guilt and the Shadow apresenta mecânicas extremamente simples, de fácil entendimento. Além de andar, empurrar blocos e subir escadas, a única ação que o personagem principal pode executar é tocar um misterioso instrumento musical na forma de um pássaro, utilizado na resolução da maior parte dos desafios presentes no jogo. O nível de dificuldade destes puzzles é perfeito: embora nos obriguem a perder um tempinho raciocinando, nenhum deles chega a ser tão difícil a ponto de atrapalhar o enredo, a verdadeira estrela do show.

“Optamos por fazer um gameplay bem simples, o mais acessível possível. Nossa ideia não era fazer um jogo que exigisse grande experiência com videogames, com mecânicas complicadas ou curtos tempos de resposta. Pelo contrário, queríamos que o jogadores vivessem a estória que estamos contando, como numa espécie de curta metragem interativo”, explica Machuca. “Na verdade, durante o desenvolvimento, o gameplay sempre foi algo secundário, servindo apenas ao necessário para fazer o jogo funcionar.”

Não posso deixar de falar sobre a música e os efeitos sonoros, simplesmente excepcionais. A trilha sonora é bela e melancólica, criando uma atmosfera imersiva e perfeitamente condizente com o enredo do game. Em mais de uma ocasião parei de jogar o jogo por uns cinco minutinhos, completamente absorto nas lindas melodias espalhadas por seus cenários. Aliás, no início de The Guilt and the Shadow há um aviso recomendando ao jogador utilizar fones de ouvido e jogar o game no escuro. Gostaria de reforçar essa recomendação, faz toda a diferença.

O jogo é bem curto, podendo ser completado em pouco menos de duas horas. Além de durar pouco, a estória é completamente linear, existindo apenas um caminho correto que nos leve até sua conclusão. Para mim, isso não chega a ser um grande defeito – em breve voltarei a jogar The Guilt and the Shadow, tenho toda a certeza. Assim como um excelente filme merece ser assistido novamente, o jogo com certeza pede um segundo gameplay, graças à arte e trilha sonora impecáveis.

Machuca e Annes nos contam que já estão trabalhando num pequeno projeto complementar ao jogo. Pretendem lançar em breve uma pequena fase adicional, gratuita, que segue paralelamente a estória do game original. “É um pequeno adicional, no tamanho de uma fase. Quem já jogou vai poder acompanhar uma nova fatia da estória, complementar ao enredo original. E quem ainda não jogou poderá se interessar ou não pelo jogo.”

“Temos total consciência de que o jogo é muito, muito nicho, voltado para um público muito específico. Sabemos, com certeza de que é um jogo que não vai agradar todo mundo”, comenta Machuca. “Mas as pessoas que estão jogando estão nos dando muitos comentários positivos, inclusive em análises pela internet. Estamos super felizes com a recepção do jogo, pelo menos por enquanto.”

The Guilt and the Shadow é, como disse Machuca, extremamente nicho. Não poderia, definitivamente, recomendá-lo aos fãs de ação desenfreada, tiros, sangue e explosões. Porém, para aqueles que sabem apreciar uma narrativa marcante e bem contada, o jogo é um prato cheio. Some a isso visuais espetaculares e uma trilha sonora digna de premiações e temos aqui a receita para o sucesso. Preciso dizer que o jogo é uma das mais belas provas que, de fato, videogames podem ser arte.

Agradecemos muito a Frederico Machuca e Luiz Rodolfo Annes por terem cedido seu tempo ao Sem Tilt. Fiquem ligados no site para projetos futuros dos dois artistas!

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4.5

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Henrique Castilho

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