Análise de Jotun - Você não irá impressionar os Deuses | Sem Tilt

Análise de Jotun – Você não irá impressionar os Deuses


Sou um grande fã de animações, sejam elas megaproduções destinadas ao cinema ou simples séries compostas por episódios de 10 minutos. Essa fascinação pelo mundo dos desenhos animados fez com que sempre ficasse ansioso pelos próximos lançamentos da Disney, mas talvez nenhum dos grandes filmes da empresa tenha me fascinado tanto quanto o épico de 1997, Hércules. A mistura de uma espetacular animação 2D com a riqueza da mitologia grega me encantou profundamente, com um destaque especial para o design das criaturas enfrentadas pelo herói ao longo da história. Foram estes mesmos elementos que me deixaram ansioso para colocar as mãos em Jotun.

Graças a uma bem-sucedida campanha no Kickstarter, aprovação no Steam Greenlight e contribuições do governo canadense, a Thunder Lotus Games se estabeleceu e deu início ao desenvolvimento de Jotun, game que conta a história de Thora, uma gloriosa guerreira nórdica que pereceu em alto mar durante uma tempestade e precisa provar seu valor como combatente perante os deuses, conseguindo assim acesso ao Valhalla, o paraíso dos heróis nórdicos. Apesar da premissa simples, a narrativa do game consegue criar uma conexão profunda com a protagonista, que conta sua história aos poucos conforme vencemos cada desafio. Além disso, o enredo compartilha inúmeras lendas da mitologia nórdica, servindo como uma espécie de aula de história para aqueles só conhecem Odin, Thor e Loki graças aos filmes da Marvel. Em sua jornada, Thora deve impressionar as entidades derrotando 5 gigantes elementais chamados de Jotun, e conforme a guerreira revela detalhes de sua vida e apresenta os acontecimentos que levaram até sua morte é possível ver que, apesar de suas animações em 2D e da clareza de sua missão, a heroína não é uma personagem bidimensional e possui motivações profundas para continuar lutando.

Talvez o aspecto que chame mais atenção em Jotun seja o visual. Grande parte dos cenários explorados por Thora foram desenhados à mão e apresentam uma beleza raríssima digna de exposições artísticas. A técnica também é muito bem utilizada na reprodução dos movimentos da guerreira e de seus inimigos. Essa conexão entre animação e movimento faz com que seja impossível falar da beleza do jogo sem comentar sobre a dinâmica do gameplay. Se você já se aventurou em Shadow Of the Colossus, um clássico de PS2, ou Titans Souls vai notar que Jotun bebe da mesma fonte. Durante todo o gameplay, os únicos inimigos enfrentados são os próprios chefões, sendo que para desafiar qualquer um deles é necessário encontrar duas runas que estão cada uma em um mapa diferente que deverá ser explorado. Estes cenários contam alguma história sobre o universo de Jotun, sempre revelada aos poucos ao jogador pela narração da protagonista, e além disso possuem ameaças e quebra-cabeças – em um dos mapas, monstros (que não podem ser mortos) arremessavam rochas em minha direção, e além de desviar dos ataques ainda precisei levar cada uma das pedras para o rio de lava que circundava o terreno, conseguindo assim avançar em direção ao outro lado do mapa. Além das runas, é possível encontrar maçãs que aumentam a barra de HP de Thora, poços que recuperam sua saúde e grandes estátuas de deuses nórdicos para os quais a guerreira pode rezar para receber sua benção e a capacidade de usar uma magia relacionada ao Deus para o qual fez suas preces. Estes recursos são incrivelmente importantes, porém o jogo pode ser completado sem nenhuma das melhorias.

Esse senso de exploração, assim como a inexistência de batalhas durante as andanças pelo universo do jogo, faz com que o jogador tenha tempo para apreciar os cenários e a história fantástica na qual está imerso, dando ao game um ritmo lento e que pode não agradar àqueles que exigem ação e adrenalina a cada minuto. Como Thora não se move muito rápido, essa dinâmica pode ser frustrante para aqueles que querem encontrar todos os segredos do game já que muitas coisas passam despercebidas da primeira vez que um cenário é explorado, o que exige que se faça o longo percurso mais vezes – o que também acontece quando as ameaças do cenário matam a guerreira, fazendo com que o sentimento agradável de descoberta seja substituído pela vontade de passar logo pelo cenário uma segunda vez.

O combate de Jotun é simples: Thora pode esquivar e realizar ataques leves ou pesados com seu machado, sendo que o segundo tipo causa maior dano mas leva mais tempo para ser desferido. As magias também ocupam um papel importante nas lutas. Entre elas estão a habilidade de recuperar a energia da guerreira, aumentar sua velocidade e até mesmo torná-la invulnerável por um curto período de tempo, que obviamente tem uso limitado e normalmente reduzido a 2 ativações durante o embate. Talvez seja essa simplicidade que faz de Jotun uma experiência extremamente desafiadora. As batalhas são baseadas na leitura de movimentos dos inimigos, já que Thora pode ser derrotada com cerca de 3 golpes. Os chefes possuem em torno de 4 movimentos iniciais, mas quando suas barras de HP caem pela metade este número de movimentos pode aumentar para 5 ou 6, fazendo com que o jogador seja obrigado a realizar uma nova leitura de sua estratégia. Em uma das lutas o Jotun enfrentando se divide em dois, fazendo com que quase todo o mapa seja uma zona de perigo. Como em Dark Souls, a dificuldade não chega a ser injusta, e na verdade Jotun é mais misericordioso do que o sucesso da From Software, permitindo que o jogador renasça imediatamente no início da luta com todos os seus recursos carregados. Porém, as várias derrotas são sempre culpa do jogador, fazendo com que as vitórias sejam ainda mais gratificantes. De qualquer modo, prepare-se para morrer. Muito.

A trilha sonora do jogo é ótima na contextualização dos momentos pelos quais o jogador passa. As batalhas contra os Jotuns apresentam trilhas épicas, enquanto a exploração dos cenários mitológicos é pautada por melodias calmas, condizentes com cada um dos ambientes. Andando por florestas, sons calmos preenchem o cenário. Já uma jornada por regiões pantanosas traz composições misteriosas e melancólicas. É louvável a maneira como a Thunder Lotus Games conseguiu conectar tão bem todos os aspectos do jogo – a narrativa está diretamente ligada à qualidade das animações, assim como a trilha sonora é parte integrante das batalhas. Durante todo o meu tempo com Jotun, que para os jogadores mais habilidosos não deve passar de 5 horas, senti como se estivesse sentado em uma fogueira sob um céu estrelado, enquanto um velho sábio estava me contando histórias fantásticas sobre o nascimento do mundo, o destino dos mortos e os 4 elementos. Apesar desse sentimento mágico, é inegável que revisitar áreas apenas para buscar um item escondido não foi nada prazeroso, mas esse gostinho amargo é rapidamente substituído ao entrar em uma sala com um gigante preparado para te obliterar.


Desenvolvedora/Distribuidora: Thunder Lotus Games
Plataformas: PC, Mac, Linux (Steam)
Preço: R$27,99 (Trilha sonora original R$19,90)
Site Oficial

Prós

• Apresentação impecável;
• Trama envolvente;
• Universo imersivo;
• Incríveis batalhas.

Contras

• Revisitar mapas em busca de recursos importantes;
• Ritmo lento pode cansar os mais ansiosos

4

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VH Capelini

Vindo das longínquas terras do Paraná, este jovem estudante de relações públicas leva uma vida baseada em derrotas humilhantes em Heartstone e mortes infindáveis em Bloodborne. Gosta de batata, de estudar e de indie games - principalmente puzzles e sidescrollers.