Análise de Dropsy - A cara da felicidade | Sem Tilt

Análise de Dropsy – A cara da felicidade


Desde o fim da era de jogos da LucasArts é possível contar nos dedos as boas aventuras point-and-click. Para muitos dos que já jogaram Maniac Mansion, a aventura de Broken Age é pouco interessante e o remake em HD de Grim Fandango só dá pro gasto. Poucos desenvolvedores tentarem alcançar o nível de humor que Day of the Tentacle The Secret of Monkey Island conseguiram alcançar nos anos 90. Apesar desse abandono recente, Dropsy usou o gênero de forma pouco convencional e criou uma história única, protagonizada por um amigável palhaço com cara de psicopata.

Apesar de ser a personificação de um pesadelo de uma criança com medo de palhaços, Dropsy (que também é o nome do palhaço) se envolve em uma aventura afetiva com todas as pessoas da cidade. Seu objetivo será acabar com a infelicidade que tomou conta de todas as pessoas da ilha após um incêndio no circo em que Dropsy trabalhava. Toda a cidade acredita que ele foi o responsável por esse incêndio, então além da tristeza generalizada ele tem que lidar com o ódio que todos agora têm por ele, que na verdade adora todo mundo. Procurando deixá-las felizes, o palhaço tenta entender o motivo da tristeza de cada pessoa através de pequenos balões de fala com imagens que aparecem sobre elas, e assim vai resolvendo, com a ajuda de seu cachorro, os problemas de cada habitante da cidade e alguns problemas maiores que vão surgindo ao longo do caminho.

Antes de começar a resolver estes problemas, me toquei que fui enganado positivamente pelo jogo diversas vezes, até antes mesmo de comprá-lo. A temática diferente estava na cara, mas imaginei um tradicional jogo no estilo LucasArts dos anos 90 em que eu falaria com diversos personagens e escolheria o que falar com cada um. Com certeza fui levado a isso pela bela arte colorida do jogo, inteiramente feita em pixel art e um pouco nostálgica. Quando comecei o jogo, notei que nenhum personagem tinha falas e que não havia nenhuma linha de texto no jogo, a não ser por alguns estranhos símbolos incompreensíveis quando eu abraçava as pessoas ou fazia meu cachorro mijar em algo.

Isso vai completamente na contra-mão do que se conhece como um point-and-click tradicional, e isso foi chamando minha atenção aos poucos. Se você, assim como eu, não gosta de ver vídeos com gameplay do jogo antes de pegá-lo, talvez vá ficar um pouco perdido até entender o que você deve fazer e que itens deve procurar para deixar cada pessoa feliz só pelos balões. O desafio do jogo é entender esses pequenos puzzles em forma de imagens, além de saber o que fazer com cada item que você pega. Apesar disso, uma vez que você se acostuma com as imagens fica um pouco mais fácil resolver os problemas. Esses balões também são usados para expressar o ódio das pessoas por Dropsy, e a parte engraçada disso é que, apesar de não falarem, todos os personagens resmungam algo quando você interage com eles, e algumas vezes soltam barulhos que soam como “I hate clowns”, que seria “odeio palhaços”, seguido de um balão com um risco vermelho no rosto do pobre e incompreendido Dropsy.

O mapa da ilha onde se passa a aventura é enorme, e se reflete na quantidade de personagens. Talvez para que o jogo não ficasse longo demais, agradar alguns dos personagens é opcional e não faz parte do enredo principal. Isso fez falta e pareceu desvalorizar a presença destes personagens “extras” no mundo, o que rompe com a ideia de um mundo totalmente conectado e com interação total do jogador com todos os personagens, como acontecia em outros jogo do gênero. Apesar de eu pessoalmente ser um fã de rompimentos, esse foi desnecessário e apenas me arrancou uma parte do jogo e da história. A curiosidade de ajudar estes personagens acabou junto com a história principal, então simplesmente fiquei sem saber mais sobre personagens como o segurança da boate, do policial e do pequeno peixe no lago.

A resolução dos puzzles está nos pequenos detalhes e lógicas, então intuição e cliques aleatórios raramente vão ajudar. Já que cada personagem está associado com um puzzle é impossível ter uma solução que sirva para todos, e sempre há pequenas pistas que podem ser encontradas ao longo do jogo para os desafios mais complexos. Como a cidade e a posição dos personagens muda se é dia ou noite, esse sistema também pode ser usado para conseguir resolver alguma missão, e os ajudantes como o cachorro também se tornam muito úteis nessas situações. Essa variação torna o jogo menos monótono e enjoativo. Poder controlá-los faz com que os puzzles vão além de onde Dropsy alcança e vê, e o pássaro e o rato também se tornam protagonistas em alguns pontos do jogo. Alguns itens vão ficar com você por grande parte da jornada, mas uma hora você vai descobrir que aquele tomate não é pra deixar a moça apaixonada do prédio mais feliz e nem para consolar o senhor que perdeu a esposa.

Obviamente, a transição do dia para noite é rápida se Dropsy achar algum cantinho para dormir, e nesse momento é possível viver os pesadelos do palhaço, que mostram seu lado atormentado e amedrontado. Sempre em corredores vermelhos, Dropsy anda olhando para objetos distorcidos de sua casa e de seu quarto enquanto ouve e vê alguns de seus brinquedos cantando como anjos ao fundo. Esses pesadelos não influenciam o jogo, mas mostram um pouco mais da complexidade do personagem, que espanta com sua aparência e acolhe com seus gestos. Apesar de ser um altruísta perfeito, o personagem tem seus traumas e medos que acaba deixando de lado durante o dia.

O som do jogo é muito bem trabalhado, e é possível coletar fitas cassete com trilhas extras para ouvir em rádios durante o jogo. Além de conterem ótimas músicas de diversos gêneros feitas exclusivamente para o jogo, algumas delas são uma parte essencial do enredo. Diferente do que aconteceu com os personagens extras, o som ficou perfeitamente integrado ao restante do jogo.

Dropsy usa elementos dos point-and-clicks clássicos, como puzzles intrigantes e uma grande quantidade de personagens, e os muda completamente. Os textos viram imagens e as vozes viram resmungos, que são entendidos tão bem quanto as palavras mas com lógicas diferentes. O desafio que o jogo propõe com puzzles apresentados de forma diferente e um protagonista intensamente movido por emoções em um mundo apático tornam o universo de Dropsy ambíguo e único, além de uma experiência essencial para qualquer fã de videogames.


Desenvolvedoras: Tendershoot, A Jolly Corpse
Distribuidora: Devolver Digital
Plataformas: PC, Mac, Linux (Steam e itch.io)
Preço: R$19,90

Prós

• Protagonista complexo e interessante;
• Aventura muito bem contada apenas com imagens;
• Sons que se integram ao enredo;

Contras

• Personagens extras são irrelevantes para o enredo

Dropsy é um point-and-click que soube misturar elementos clássicos e modernos na medida certa. Com um enredo baseado nas emoções do personagem principal e de todos os outros personagens da ilha, Dropsy mostra a profundidade que os clássicos da LucasArts tinham com um gameplay sem uma linha de texto. Essencial para fãs do gênero
4.5

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Bhernardo Viana

Amante do pão de queijo e do cafézim, começou a brincar no meio dos indies e não parou mais. Um grande fã de puzzles e de jogos alternativos, experimentais e malucos. É o Editor-Chefe do Sem Tilt e ex-redator no site e na revista da Indie Game Magazine.