A importância do Sonic para os consoles | Sem Tilt

A importância do Sonic para os consoles


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Qual foi o maior herói dos games criado nos anos 1990? Aquele que melhor representa a cultura gamer dessa década? Aquele que, ao olharmos hoje em dia, lembramos de uma época nostálgica quando os filmes do Duro de Matar ainda eram bons?

Todos que responderam Cloud de Final Fantasy VII (Square, 1997) estão claramente enganados, e aqueles que citaram Lara Croft estão meio certos, mas a resposta correta é Sonic The Hedgehog. Ele é azul, ele é rápido, ele tem atitude e ele é o maior ícone dos games dos anos 90, e um dos maiores marcos culturais da década.

No final dos anos 1980, a Nintendo dominava completamente o mercado de consoles. Por mais que o Master System tenha sido um sucesso considerável aqui no Brasil (e é vendido até hoje), ao analisarmos o mercado global ele não chegou nem perto das vendas do NES. Mas a Sega não ia entregar a briga, e resolveu lançar um novo console mais poderoso em 1988 no Japão e nos anos seguintes no resto do mundo: o Mega Drive/Genesis. Quando era mais novo, eu sempre achei que o nome oficial dele era Genesis e que tinha sido a Tec Toy quem inventou o nome Mega Drive, mas na verdade os americanos que resolveram mudar o nome do console em relação ao original.

Embalagem original do Mega Drive japonês

O Mega Drive foi bem recebido pelo mercado, e quando suas vendas começaram a ameaçar a Nintendo, ela decidiu lançar o Super Famicom em 1990 no Japão, que foi lançado com o nome de Super NES no resto do mundo nos anos seguintes. Essa nova máquina viria a ser um sucesso estrondoso e rapidamente alcançar a base instalada do console da Sega, levando a empresa a buscar algum modo de se manter na briga. Eles precisavam de um novo jogo e um novo mascote que pudesse competir no mercado com Mario, já que tanto Alex Kidd in Miracle World (Sega, 1987) na época do Master System quanto Altered Beast (Sega, 1988) já no Mega Drive não deram conta do recado.

Por sorte, um dos seus jovens programadores, Yuji Naka, havia criado um protótipo que mostrava muito potencial e que exibia muito bem o poder tecnológico do console, um tipo novo de jogo de plataforma focado em velocidade, loops e túneis curvos, onde o personagem se tornava uma bola e girava pelo cenário. Mas uma bola não ia dar certo uma segunda vez no mercado de games; a era do Pac-Man já tinha passado, e a Sega precisava de um personagem marcante para esse jogo. Esse mascote veio a ser justamente o Sonic, fruto da imaginação do designer Naoto Ohshima.

Desde o princípio ele era um ouriço azul, mas na sua primeira versão ele tinha presas, tocava numa banda de rock e tinha uma namorada humana de seios avantajados e vestidinho apertado chamada Madonna (sério). Após algumas revisões, a empresa chegou à versão do personagem apresentada no primeiro jogo e que carinhosamente chamo de “Sonic gordinho”.

Vamos lá, todo mundo junto: SEEE-GAAAA!

Só de olhar dava pra ver que ele era diferente do Mario. Enquanto que o encanador tinha um ar bonzinho, meio inocente, Sonic tinha algo mais – ele era legal. Radical. Ele sabia o que queria e ia lá conquistar isso com as próprias mãos, e rápido. Um herói com atitude.

A capacidade do jogo de demonstrar o poder do Mega Drive aliado ao visual radical do personagem casou perfeitamente com o marketing da época da Sega America, nos Estados Unidos, que vendia o console como algo diferente do que era oferecido pela Nintendo com o famoso slogan “Genesis does what Nintendon’t” (o Genesis faz o que a Nintendo não faz, com um trocadilho juntando Nintendo e não faz). A premissa era que o NES era um console para crianças e, se você não era mais uma criança, você ia querer o console mais maduro e poderoso, o Genesis. O então presidente da Sega America, Tom Kalinske, percebeu o potencial do jogo e tomou a controversa decisão de mudar o jogo que vinha com o console do Altered Beast para o Sonic e, ao mesmo tempo, baixar o preço da máquina na mesma época do lançamento do Super NES. Se não fosse o apoio de Hayao Nakayama, o presidente global da Sega na época, Kalinske não teria conseguido pôr seu plano em ação.

Caixa do Genesis com o primeiro jogo do Sonic incluso

Deu certo. O console estourou em vendas e Sonic se tornou um ícone, ficando (por um tempo) mais popular não apenas que o Mario, mas mais até que o Mickey Mouse, e ajudaria de vez a cimentar a imagem do Mega Drive como o console legal e do Super NES como o console infantil, e essa imagem persegue a Nintendo até hoje (apesar dela, aparentemente, não se importar muito com essa imagem). O ouriço azul era o mascote perfeito para representar uma juventude que tinha crescido, era radical e com atitude.

Com o sucesso de Sonic não demorou para aparecerem cópias de segunda mão. Não, não estou falando dos cartuchos piratas com 150 jogos que seu pai comprou pra você dum camelô super confiável, estou falando da avalanche de animais com traços humanos e radicais que inundou o mercado de games nos anos seguintes.

Para dar alguns exemplos: Bubsy, de Bubsy in Claws Encounters of the Furred Kind (Accolade, 1993), Rocky, de Rocky Rodent (Irem, 1993), Aero, de Aero the Acro-Bat (Iguana Entertainment, 1993), Zero, de Zero the Kamikaze Squirrel, um spin-off de Aero the Acro-bat (Iguana Entertainment, 1994), Earthworm Jim, do jogo de mesmo nome (Shiny Entertainment, 1994), Gex, do jogo de mesmo nome (Crystal Dynamics, 1995), Crash Bandicoot, do jogo de mesmo nome (Naughty Dog, 1996) e Klonoa, de Klonoa: Door to Phantomile (Namco, 1997). Todos jogos de plataforma, todos com um mascote cheio de atitude pra dar e vender, cada um tentando ser mais radical que o Sonic.

A própria Nintendo entrou nessa com a criação do Diddy Kong em Donkey Kong Country (Rare, 1994), com seu boné super supimpa, seu boombox super maneiro e suas habilidades super bacaninhas como rapper. O cúmulo dessa febre, na minha opinião, foi o Awesome Possum, de Awesome Possum… Kicks Dr. Machino’s Butt (Tengen, 1993), um jogo de plataforma educativo sobre ecologia… com um gambá cheio de atitude.

Vejam bem, não estou falando que os jogos de onde saíram todas estas imitações pobres do Sonic são ruins. Eu até tiro sarro, mas na minha opinião os jogos das séries Donkey Kong Country, Klonoa e Crash Bandicoot são melhores que os de Sonic, assim como gosto muito do Earthworm Jim como personagem. Lixo mesmo só os do Aero.

O ponto que estou querendo mostrar é que o Sonic foi um marco tão grande nos games que, por anos, ele foi sinônimo do que havia de mais legal no meio, gerando inúmeros plagiadores mas nenhum causando o mesmo impacto cultural, que foi além dos games com séries de desenhos animados e quadrinhos. O seu gibi, inclusive, é a maior série de quadrinhos ininterrupta inspirada em um videogame de todos os tempos, sendo publicado nos EUA desde 1993 até hoje.

O sucesso foi tanto que o Sonic foi o primeiro personagem de videogame a aparecer na parada de balões de dia de ações de graças da Macy em Nova Iorque, em 1993

Mais do que isso: o Sonic, junto com o Mega Drive, foi um dos primeiros passos na grande transformação cultural que aconteceu com os consoles durante a década de 1990, quando eles deixaram de ser apenas um brinquedo e viraram um gadget, um aparelho tecnológico desejado por entusiastas de todas as idades.

É por isso que, para mim, o Sonic é o grande símbolo dos games da década de 1990. Seus jogos não elevaram a narrativa dos games como Metal Gear Solid (Konami, 1998), não foram uma revolução visual como Super Mario 64 (Nintendo, 1996), não causaram a mesma controvérsia que Mortal Kombat (Midway, 1992) nem venderam tanto quanto Pokémon Red & Blue (Game Freak, 1996/1998).

Mas, mesmo eu, grande fã da Nintendo que sou, tenho que tirar o chapéu para a grande proeza que esse ouriço azul de sapatos vermelhos realizou: Ele mudou a imagem dos consoles para sempre.

Essa postagem faz parte da primeira semana temática do Sem Tilt, que tem o tema Anos 90. Você pode ler outras postagens como essa conforme elas forem sendo publicadas durante a semana.

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Vitor Takayanagi

O melhor meio de conhecer uma pessoa é pelos Pokémons que ela escolheu. Os meus foram: Squirtle, Cyndaquil, Torchic, Turtwig, Snivy e Froakie. Muito prazer. Caso interessar, visitem meu blog (só clicar no botãozinho aí no canto superior direito).